es des­en­con­tradas. Nis­to, uma lu­fa­da de ven­to frio so­pra do quad­rante de proa, em rabo de vír­gu­la, de­screven­do uma cur­va para es­ti­bor­do. For­ma­va-​se per­to o tufão. Os ra­pazes boli­naram no fio do ven­to, nave­gan­do de ca­pa. Há uma nevoeira in­co­er­cív­el cor de zin­co que lh­es tol­da a vista, e uns ru­mores in­dis­tin­tos, que se não sabe que se­jam, nu­ma zoeira sur­da e di­fusa.

  Es­tavam com ter­ra à vista. Co­mo a sua, out­ras em­bar­cações havia per­to.

  De vez em vez, lu­fadas de ven­to se lev­an­tam, ca­da vez mais fortes, pas­san­do por vante, des­vian­do-​os do ru­mo. Os ra­pazes col­her­am a vela, e puser­am-​se a re­mar com de­ses­pero. O mar sobe, na fúria da va­ga, aci­ma das em­bar­cações. Há gri­tos, berros, uiv­os…Pa­vor, aflição, de­ses­pero! O ven­to in­sin­ua-​se en­tre mar e ter­ra, e afas­ta-​os da cos­ta. Ra­banadas de ven­to lev­am as em­bar­cações de es­cant­il­hão para o largo. Va­gal­hões es­ta­lam co­mo petar­dos no costa­do das lor­chas, e sobem em vo­lu­tas fran­jadas de es­puma aci­ma do con­vés. Às vezes, as em­bar­cações an­dam em jan­ga­da, e ar­ras­tam para o largo uma ou out­ra, que de­sa­parece en­tre va­gas. O mo­men­to é de­ses­per­ado. As lu­fadas de ven­to au­men­tam de in­ten­si­dade. São ca­da vez mais du­radoiras, e pare­cem apos­tadas em levar tu­do na frente, de ro­ta abati­da. Pas­sam co­mo uma ra­soira so­bre as ár­vores das en­costas, cor­tan­do-​lh­es as ra­madas cerce, desven­tran­do raízes de tron­cos sec­ulares, do­bran­do caules flexíveis de ten­ros ar­bus­tos, pe­gan­do em blo­cos de pe­dras colos­sais, e pro­jectan­do-​os pe­lo ar à dis­tân­cia… – der­ruin­do, dev­as­tan­do, ar­rasan­do! 

  Do mar para ter­ra e de ter­ra para o mar, as lu­fadas iam e vin­ham, no seu du­plo movi­men­to de ro­tação e translação, tor­ci­colan­do, sin­uosan­do, gi­ran­do doida­mente, em es­pi­ral. Quan­do se lançam ao mar na­da as de­tém na cor­ri­da. O ven­to adquire en­tão uma ve­loci­dade ver­tig­inosa, es­pra­ian­do-​se am­pla­mente no es­paço livre, so­pran­do a vi­olên­cia de­stru­ido­ra da sua rai­va, nu­ma zoa­da con­fusa, onde tu­mul­tuam to­das as forças in­domáveis da Na­tureza em des­or­dem. 

  Ele era um des­graça­do. O mais des­graça­do que se pode ser na vi­da: -não tin­ha família. Quan­do deu por si no mun­do, en­con­trou-​se a bor­do dum tan­car, ao la­do du­ma vel­ha re­pe­lente, cal­va e des­den­ta­da, se­ca co­mo um grave­to, pele en­cor­rea­da e franzi­da, tis­na­da pe­lo ar mar­in­ho. Não tin­ha família; não tin­ha ninguém. A em­bar­cação em que se en­con­trou era a sua úni­ca habitação. Dias e anos se pas­savam sem que pusesse o pé em ter­ra. Du­rante o dia, fi­cavam longe das costas, sur­tos no meio do mar. De noite, re­mavam à so­ca­pa pe­lo labir­in­to do delta, e es­per­avam a abor­dagem doutros bar­cos. 

  Ia en­tão pe­los dez anos. Des­ta fase da sua vi­da con­ser­va­va ape­nas va­gas rem­inis­cên­cias. A sua memória não re­pro­duzia com min­uciosi­dade episó­dios segui­dos. Evo­ca­va ape­nas man­chas, frag­men­tos, fac­tos iso­la­dos, sur­dindo do seio tene­broso da noite, du­ma mas­sa es­cu­ra, húmi­da e quente de névoa. Luzes de lanter­nas, pon­tos lu­mi­nosos, lu­cilar ténue de farolim... En­tão, deix­avam de re­mar. O tan­car fi­ca­va a balouçar-​se, à mer­cê da on­du­lação lenta da água. E um mo­men­to an­gus­tioso se seguia. Não se tu­gia palavra, não se fazia um gesto, para evi­tar ru­mores. Lo­go que tossisse ou es­pir­rasse, a vel­ha chega­va-​se a ele, com os pun­hos fecha­dos à al­tura dos ol­hos, as ar­nelas dos dentes à mostra, ameaçan­do de o es­tran­gu­lar. A 