on­du­lação lenta da água da­va ao tan­car em­ba­los de berço. E o «chlap-​chlap» da água, que­bran­do no costa­do a tremuli­na mur­mu­rante da sua lenta on­du­lação, nu­ma cadên­cia monó­tona de melopeia, provo­ca­va-​lhe um sono ir­re­sistív­el. Bem que pe­lo dia to­do, sur­to no mar, longe da cos­ta, pudesse dormir à von­tade; mas, aque­la es­pera in­ter­mináv­el, a vigília a que era obri­ga­do nu­ma imo­bil­idade con­trafei­ta, o re­len­to es­curo da noite, fazia-​o cair em modor­ra, pros­tran­do-​o nu­ma las­sidão a que não havia re­si­stir.

  Era es­ta uma das recor­dações mais vi­vas da sua in­fân­cia.

  Man­chas de luz amare­la­da, des­feitas na nebli­na, aprox­imavam-​se do tan­car. Er­am jun­cos costeiros. Lo­go que se en­con­trassem à fala, tro­cavam palavras que ele não com­preen­dia. As lanter­nas, al­imen­tadas a óleo de colza, apa­gavam-​se. Seguia-​se de­pois uma fervil­ha­da de ru­mores, falas mis­te­riosas... O tan­car enchia-​se de cri­anças, en­tre três e cin­co anos, es­far­ra­padas, quase nuas. Deitavam-​nas so­bre uma es­teira de­baixo da tol­da. Umas nem davam pela re­moção; out­ras, resmungavam, ol­hos em­pa­pa­dos de sono, e fi­cavam-​se a dormir. O tan­car fazia-​se ao largo. Com a es­quer­da, a vel­ha pe­ga­va no timão, e com a di­re­ita da­va ru­mo ao bar­co, aflo­ran­do a água com a pá do re­mo. En­tão, aproa­dos ao ru­mo, era pre­ciso re­mar com força, deslo­can­do o bar­co pe­sa­do. Seus braços ten­ros, ain­da por con­for­mar, lo­go se cansavam. Mas a vel­ha in­ci­ta­va-​o a re­mar, com pra­gas e in­júrias, e ameaça­va de o vender aos pi­ratas.

  Cos­tu­ma­da a ver a dis­tân­cia, a vel­ha pun­ha de vez em quan­do a mão em pala so­bre os ol­hos. Nun­ca ele de­scorti­nou na fu­maça de névoa es­cu­ra, que fecha­va o hor­izonte, qual­quer coisa de anor­mal que lhe chamasse a atenção. Mas a vel­ha tin­ha uns ol­hos pe­queni­nos, sum­idos en­tre papu­losi­dades re­franzi­das das suas palpe­bras oblíquas, que per­scru­tavam o in­sondáv­el. E tomavam no­vo ru­mo.

  Uma nó­doa es­cu­ra começa­va a de­sen­har-​se no seio da névoa. Já a madru­ga­da da­va à mas­sa para­da e so­tur­na do nevoeiro um tom alam­brea­do. A nó­doa es­cu­ra alas­tra­va, de mais em mais, as­sum­ia pro­porções colos­sais dum fan­tas­ma aéreo. De súbito, definia-​se no es­paço a vela ne­gra du­ma lor­cha. En­tão começa­va de no­vo um movi­men­to atrafe­ga­do. As cri­anças er­am trans­portadas em braços, uma a uma, do tan­car para a lor­cha. Re­movi­da a úl­ti­ma, de­samar­ravam as es­co­tas, fix­avam as ale­tas e alavam a boli­na ao ru­mo da aragem. Os re­mos guin­chavam nas for­que­tas, e a lor­cha ro­da­va lenta, rangen­do nas jun­tas.

  O Sol não tar­da­va a romper ser­ena­mente, pal­hetan­do de es­ca­mas fugidias de ná­car a água bar­renta do delta.

  A vel­ha recol­hia-​se à tol­da, aco­co­ra­va-​se a um can­to, en­con­cha­da co­mo bi­cho de con­ta, e pun­ha-​se a con­tar din­heiro. Con­ta­va e re­con­ta­va. Con­ta­va e prague­ja­va, mi­ran­do e remi­ran­do moedas de pra­ta, pro­du­to do trá­fi­co tor­pe. E a resmungar en­tre dentes, ar­reca­da­va o din­heiro na es­cotil­ha dis­sim­ula­da do tan­car. 

  Prepar­ava a lin­ha de pesca e en­tre­ga­va-​a ao ra­paz. De­pois, en­rodil­ha­va-​se co­mo um nov­elo so­bre a es­teira, de­baixo da tol­da, e dormia pro­fun­da­mente. 

  Era um des­graça­do. O mais des­graça­do que se pode ser na vi­da: -não tin­ha família. Não tin­ha ninguém.

  En­quan­to a vel­ha dormia res­fol­gada­mente, o ra­paz fi­ca­va a pescar. Mas ho­ras se pas­savam às vezes, umas atrás doutras, sem que o peixe pi­cas­se na is­ca. O ra­paz re­costa­