va-​se na amu­ra­da do tan­car, fixan­do vaga­mente a dança das pepi­tas de oiro, tremeluzin­do na água bar­renta, para­da e mole do canal. A solidão apez­in­hante da água mor­ta, a mono­to­nia da luz gluti­nosa, cor de lama, o res­fole­gar lento da vel­ha, davam-​lhe uma que­breira que o en­tor­pe­cia, fazen­do-​o cair nu­ma ir­re­sistív­el sonolên­cia. Mas lo­go acor­da­va, es­tremunhado. A primeira im­pressão era de es­pan­to. Abria os ol­hos, num es­forço à so­bre­posse, e procu­ra­va a vel­ha. A vel­ha con­tin­ua­va a dormir, rui­dosa­mente. E tu­do o mais era silên­cio…Ao longe, uma ou out­ra em­bar­cação, sur­ta ao largo, aguar­da­va pa­ciente que o peixe en­trasse nas re­des.

  Lor­chas man­dari­nas, de al­to caste­lo de proa, es­per­avam ven­to fagueiro para con­tin­uar a der­ro­ta. Um silên­cio mor­to sepul­ta­va as coisas. A água era uma pla­nu­ra monó­tona de lama. Nem um leve ade­jo de brisa ligeira na vi­ração. Tu­do era imóv­el, du­ma imo­bil­idade tór­pi­da de pân­tano. As ve­las ne­gras, em for­ma de asa, er­am sil­hue­tas de ra­paces colos­sais pairan­do... No abrir e fechar ir­re­sistív­el das pálpe­bras sono­len­tas, as man­chas ne­gras das em­bar­cações deix­avam-​lhe na reti­na im­agens de­scon­formes, fan­tas­mas de penum­bra. Uma sen­sação de iso­la­men­to, de aban­dono, o in­va­dia, per­di­do naque­le de­ser­to mu­do, onde as em­bar­cações ao longe, iso­ladas umas das out­ras, tomavam ex­pressões hostis de es­piões. Um dia, ao acor­dar, deu por fal­ta da lin­ha de pesca. Caíra-​lhe da mão en­quan­to dormia. E fi­cou tran­si­do de me­do. Procurou por to­dos os la­dos, per­scrutou a água imóv­el. A lin­ha não apare­cia. O ra­paz que­dou-​se, leso. No seu ol­har atóni­to havia pre­visões pâni­cas de catástro­fes. A figu­ra da vel­ha er­gueu-​se-​lhe na imag­inação, na at­itude de o cas­ti­gar, cal­va e des­den­ta­da, ol­hos ful­mí­neos, far­ri­pas de ca­be­lo ao léu!

  Atrav­es­sou-​lhe a cabeça a ideia de se deitar à água, de se afog­ar. Mas a vel­ha não se movia. En­rodil­ha­da a um can­to da tol­da, en­con­cha­da co­mo um bi­cho de con­ta, a vel­ha es­ta­va mor­ta... 

  De­pois que a vel­ha mor­reu, o ra­paz começou a pas­sar de em­bar­cação em em­bar­cação, con­soante as ne­ces­si­dades de mo­men­to, co­mo um uten­sílio. Ninguém o con­hecia, e ele não con­hecia ninguém. Era o ser­vo da vel­ha Pong. Fazia parte dessa pop­ulação flu­tu­ante, que não tem habitação em ter­ra. A sua úni­ca habitação é o bar­co em que nasce­ram, e em que virão a mor­rer. É na em­bar­cação, pe­que­na ou grande, sam­pana, tan­car ou lor­cha, que ocor­rem to­dos os fac­tos da sua vi­da. 

  Aí têm o san­tuário da família, a tab­ule­ta dos an­tepas­sa­dos; aí prestam cul­to aos an­ces­trais. Aí cel­ebram as cer­imó­nias do casa­men­to; aí nascem, aí mor­rem. 

  No primeiro dia de ca­da quinzena ren­dem hom­enagem aos manes dos nave­gantes, prop­ici­am os es­píri­tos tute­lares da gente de mar. Nas fes­tas do ano no­vo, os bar­cos revestem-​se de gala, se­jam pe­quenos ou grandes, em­ban­deiram em ar­co, afestoam-​se de pa­péis de cor. Jun­to da cos­ta, amainam as ve­las, sus­pen­dem a faina, cingem-​se uns aos out­ros. Mas­tros, de to­dos os taman­hos, er­guem-​se no ar, nu­ma es­bel­teza de caules es­guios, de­spi­dos de fol­hagem. É uma flo­res­ta aérea, onde se pren­dem as teias de aran­ha do cor­dame feitas a traços de pin­cel lev­ís­si­mo, no fun­do aguarela do céu, que tem nos poentes transparên­cias de vi­tral, amare­lo co­mo am­bar, ver­mel­ho co­mo ru­bi.

  Uma pop­ulação mar­in­ha pu­lu­la, naque­la cidade flu­tu­ante, tis­na­da do ar sali­no, bul­hen­ta e pe­quen­ina: -