vam-​se in­verosim­il­mente para cima, onde se liam as oito mar­cas div­inas. 

  A mão di­re­ita er­gui­da, lança­va o gesto am­plo, o gesto do se­meador, pre­gan­do a dout­ri­na. 

  Pivetes ar­diam no queima-​per­fumes, es­peta­dos na cin­za finís­si­ma, aromáti­ca, de sân­da­lo.

  O bon­zo er­gueu-​se e aprox­imou dos pivetes o pa­pel amare­lo. 

  Uma lín­gua de fu­mo subiu em vo­lu­tas bizarras no ar, diluin­do-​se, até ao in­visív­el, na penum­bra hi­eráti­ca do tem­plo. 

  Soaram duas pan­cadas no dis­co de co­bre bár­baro, sus­pen­so por um fio. 

  A cer­imó­nia es­ta­va fin­da. Os ra­pazes vert­er­am nas mãos do bon­zo, uma so­ma de pecú­nia. E ficaram ir­mãos para a vi­da e para a morte. Ja­mais se que­brari­am os laços de sol­idariedade fra­ter­nal que os unia, fos­se qual fos­se a even­tu­al­idade em que tivesse de ser pos­ta à pro­va, nos mais ar­risca­dos lances, nas in­cer­tas, for­tu­itas con­tingên­cias do fu­turo. Se um pre­cisas­se da vi­da do out­ro, este não se ne­garia a sac­ri­ficar-​lhe a vi­da. Di­vidiri­am en­tre si o pouco e o muito, par­til­hari­am en­tre si as ale­grias e as tris­tezas. Es­tavam jungi­dos um ao out­ro, solidários e unidos por um in­de­strutív­el pacto de sangue.

  Lig­avam-​nos en­fim laços de família... 

  Es­tavam já próx­imos da cos­ta. As em­bar­cações, im­pel­idas pelas ra­banadas de ven­to, vin­ham jun­tar-​se umas às out­ras, em jan­ga­da; mas não con­seguiam varar em ter­ra. Uma pon­ta de ven­to in­sid­iosa metia-​se traiçoeira­mente en­tre os bar­cos e a cos­ta. Os tan­car­es os­cil­am co­mo cas­cas de noz. Um ou out­ro des­gar­ra da jan­ga­da e não aparece mais.

  Começa a cair uma chu­va grossa, em go­tas que fer­em co­mo ba­gos de chum­bo. Quan­do so­pram as lu­fadas, tor­na-​se mais fi­na que poeira, im­pel­ida pe­lo ven­to. 

  Cain­do no con­vés, a água da chu­va, jun­ta à que os va­gal­hões lá de­spe­jam, pe­sa em de­ma­sia, e faz rasar a lin­ha de água pela bor­da da em­bar­cação. Pro­ce­dem à baldeação, com to­dos os uten­sílios de que po­dem lançar mão; mas não dão venci­men­to. 

  O mo­men­to é de­ses­per­ado. Há uma con­fusão formidáv­el, fragor de pele­ja, lu­ta de morte…gri­tos, berros, uiv­os! É a sub­ver­são da or­dem dos el­emen­tos para um fim úni­co de ex­ter­mínio. Não é uma visão fan­tas­máti­ca do caos: - é o parox­is­mo in­gente da rai­va de­stru­ido­ra dum juí­zo fi­nal! 

  Os va­gal­hões sobem no ar, fran­ja­dos de es­puma, na fúria de acome­ter, e es­ta­lam co­mo petar­dos no costa­do das lor­chas. Há em­bar­cações des­mas­treadas, que se des­fazem em fran­gal­hos: -far­ra­pos de ve­las, pedaços de lemes, ar­cos de cav­er­name, de­stroços de quil­has. Ninguém pen­sa já que pode sal­var-​se. Fusti­ga­dos pe­lo ven­to, mol­ha­dos até aos os­sos, con­tun­di­dos pe­los choques vi­olen­tos con­tra as amuras, su­fo­ca­dos pela efusão do ar, caem ator­doa­dos ou mor­tos. E os poucos que restam vivos, agar­ram-​se ao que po­dem, num abraço de fer­ro, que só a morte desli­gará, na ân­sia de sal­vação. 

  Os dois ra­pazes, deita­dos no las­tro do tan­car, abraçavam-​se ca­da um à sua ex­trem­idade, for­man­do com a em­bar­cação uma peça só, rete­sa­dos os mús­cu­los co­mo fer­ro, hir­tos, mu­dos, ce­gos, verde-​páli­dos co­mo cadáveres. De súbito, a um em­bate mais forte, um de­les, Fong-​Ngui-​Chac foi cus­pi­do do tan­car. Iria mor­rer, ir­re­me­di­avel­mente. Se o não tra­gassem as va­gas, de­spedaçar-​se-​ia con­tra as em­bar­cações. 

  Era pre­ciso um auxílio. Fong-​Tai-​Chac de­spe­ga-​se do abraço de fer­ro que o cin­gia à em­bar­cação e dei­ta-​lhe um re­mo. 