Mas, o out­ro não o pode agar­rar. A água sacu­dia-​o co­mo a um cava­co. 

  Apare­cia e de­sa­pare­cia. 

  Vin­ha por vezes en­cav­al­ita­do no dor­so das on­das, mas lo­go de­sa­pare­cia no recôn­ca­vo das va­gas. 

  Ia-​se afa­stan­do de mais em mais... Num pron­to, Fong-​Tai-​Chac ar­ran­cou um pedaço da es­co­ta, se­gurou-​a nos dentes, e lançou-​se à água. Nadador in­te­mer­ato, ten­do apren­di­do a nadar ao mes­mo tem­po que a an­dar, em duas braçadas al­cança o out­ro, pas­sa-​lhe às mãos a es­co­ta, e ar­ras­ta-​o, à sir­ga, se­gu­ran­do a out­ra ex­trem­idade nos dentes. Es­ta­va sal­vo o seu ir­mão. 

  O tufão deslo­cara-​se, mu­dara de di­recção. As cir­cun­voluções do ven­to, alargan­do o pas­so da es­pi­ral, er­am fa­voráveis à posição dos bar­cos. Im­pel­ida por uma vol­ta in­es­per­ada, a jan­ga­da foi em­purra­da para ter­ra. Es­tavam a dois pas­sos da cos­ta. Em­bar­cações de to­dos os taman­hos, lor­chas, sam­panas, jun­cos e tan­car­es, for­mavam uma mole com­pacta, deslo­can­do-​se co­mo um to­do. Duas lu­fadas mais, e os primeiros bar­cos vararam no lo­do. En­tão começou uma fu­ga des­or­de­na­da. Os dois ir­mãos foram os primeiros a sal­var-​se, saltan­do, lestos co­mo gamos, para ter­ra. Meio en­ter­ra­dos no lo­do, sur­pre­sos, in­cré­du­los, ol­haram para o mar. O seu tan­car po­dia ain­da sal­var-​se, bem que fos­se ar­risca­do o lance, a manobra difí­cil, in­cer­to o re­sul­ta­do. A per­da do tan­car, exígua em­bar­cação de qua­tro tábuas, frágil cas­ca de noz, era para eles uma per­da con­sid­eráv­el. E não se pouparam a es­forços. Havia por ali pedaços de re­mos, de­stroços de mas­tros, frag­men­tos de cor­das. Meio en­ter­ra­dos no lo­do, en­char­ca­dos de água, fusti­ga­dos pela ven­taneira, cain­do aqui, lev­an­tan­do-​se acolá, pe­garam dum sar­rafo que lh­es pare­ceu ad­equa­do a ar­poar de longe o tan­car, mísera em­bar­cação em ruí­na, me­tendo água por to­das as jun­tas. Am­para­ndo-​se um no out­ro, aprox­imaram-​se do bar­co. A pou­ca dis­tân­cia, porém, de­parara-​se-​lh­es uma po­bre mul­her, uma tan­car­eira co­mo eles, com o fil­hi­to lig­ado às costas, meio en­ter­ra­da no lo­do. Ca­da es­forço que ela fazia para avançar, mais se afun­da­va ain­da. Er­guia os braços num ape­lo de­ses­per­ado; mas ninguém a so­cor­ria. Os que con­seguiam saltar das em­bar­cações, pun­ham-​se em fu­ga, sem aten­tar nela. Era um salve-​se quem pud­er! A po­bre tan­car­eira, no hor­ror du­ma morte afron­tosa, ol­hos tor­vos, a voz rou­ca, su­fo­ca­da pelas efusões do ven­to, ten­ta­va faz­er-​se ou­vir. Ninguém a so­cor­ria. O fil­hi­to, que ela trazia às costas, já não pi­ava, en­char­ca­do de água co­mo um pin­tain­ho, semiân­ime, prostra­do de fadi­ga. E ca­da vez mais a tan­car­eira se en­ter­ra­va mais. O lo­do era uma mas­sa be­tu­mi­nosa, ne­gra, que pe­ga­va co­mo vis­go, ade­ria às per­nas e for­ma­va uma mas­sa com­pacta. Não po­dia romper-​se para a frente; mas ce­dia de mais em mais em pro­fun­di­dade.

  As guinadas da tan­car­eira con­fun­di­am-​se com os bru­tos ru­mores da tem­pes­tade –, ira­cun­do re­gan­ho do ven­to, so­pran­do num propósi­to de ex­ter­mínio; rangi­dos do­lorosos de es­quele­tos de em­bar­cações; marul­har da água, sacu­di­da pelas in­vesti­das fu­riosas da ven­taneira! 

  A dois pas­sos, porém, os ra­pazes de­ram pe­los ape­los de so­cor­ro. 

  Fong-​Ngui-​Chac, O mais no­vo, di­rigiu-​se para ela. Era fá­cil salvá-​la. Bas­taria um pe­queno auxílio, que lhe chegassem um sar­rafo, em que a po­bre mul­her se apoiasse, para sair do atoleiro. Um pouco mais de demo­ra, e a tan­car­eira sub­mer­