ixo a pescar a mais de sessen­ta braças e me saiu en­lea­do na nas­sa um ramo prufeito, mais lin­do que uma pal­ma, vin­do dos jardins do mar. Bem ol­hei para o fun­do, bem ten­tei de­sco­brir, mas quê? Ol­hos de vi­vo não pro­fun­dam seg­re­dos. E os mor­tos, mes­mo os que dão à cos­ta, são mu­dos co­mo peix­es. Aqui há anos peri­garam três home­ns num bar­quito ali ao norte, pró Quião, pai, fil­ho e so­brin­ho. Mor­reram sem tem­po de um padre-​nos­so, à vista de ter­ra, com a bo­quin­ha cheia de água. Pas­sa­dos dias, quan­do lh­es reben­tou o fel, o pai e o fil­ho apare­ce­ram aboia­dos, de bruços, enormes, co­mo bar­ris à tona. Vier­am en­cal­har aqui nas Pe­dras do Can­to. Mas o out­ro nun­ca mais apare­ceu. As cor­rentezas levaram-​no para o al­to, para lá da For­ca­da, para lá do ru­mo das traineiras, que an­dam à sardinha. Ninguém mais o viu. Ninguém mais soube dele. Mas eu fu­turo que de­via ter de­sci­do aos jardins do mar, onde o sol não chega e onde não há es­curidão de bréu. Os ol­hos dos peix­es são co­mo farolins e as cores tão fortes que alumeiam mais do que o lume, vi­vo, das es­tre­las. Os ver­mel­hos es­pilram co­mo sangue, as bran­curas bril­ham co­mo sal. E as al­gas são mais verdes do que o mil­ho de­pois da chu­va. E tu­do bule, movi­do pe­lo ven­to das fun­duras, tu­do lava­do pe­lo cristal das águas... Será tolear de vel­ho, será, e Deus me per­doe se nis­to peco, pois sou cristão bap­ti­za­do, mas se não fos­se por ter de mor­rer com a bo­ca cheia de água, que é morte ruim, não se me da­va de ver aque­les jardins. Não deve de haver na­da mais alin­da­do. Ol­he que até no re­bo­tal­ho que o mar nos ati­ra se con­hecem aque­las prufeições. Já viu as cores do sar­gaço, quan­do sai à beira­da? É mais ma­cio que ca­be­lo de mul­her. A francel­ha, en­tão, é uma penugem! E aque­le en­cres­pa­do do botel­ho? Não há coisa se­mea­da por mão de homem que com aqui­lo ten­ha com­para­nça. Eu até quan­do preparo a is­ca prá faneca cis­mo naque­le azul do mex­il­hão aber­to. Não há azul d'ol­hos que lhe faça som­bra. Nem os da min­ha ne­ta De­olin­da e mais pare­cem con­tas de vidro. Ah! o mar tem lin­dezas ...mas quem as con­hece? Quem se pode gabar de as ter vis­to com os ol­hos que a ter­ra há-​de com­er? 

  Ao desla­do da en­sea­da er­gue-​se, solitária, a pe­dra. As marés sub­mergem-​na, mas to­dos os dias vem uma ho­ra que de­sco­bre sua beleza, hir­ta, lava­da e só. 

  Man­hã de ven­to. Limpa de névoas e de nu­vens. Na janela de ter­ra, onde nasce o Sol, coroa­da de asas. Na janela do mar, onde o Sol se afo­ga, sali­na e azul. 

  São poucos os colmeiros de sar­gaço que bor­de­jam a estra­da, lo­go aci­ma do acam­pa­men­to, col­ori­do e bu­liçoso, dos ciganos. Ane­sa es­cas­sa. Por is­so se se­meiam muitos pelas traineiras e pe­los ban­cos de ba­cal­hau. Ain­da out­ro dia o Joaquim Ser­rin­ha, que se me tin­ha chega­do para uma fala de boas-​vin­das, re­ma­tou ju­di­ciosa­mente à de­spe­di­da: 

  -I-​is­to é b-​boa t-​t-​ter­ra para se c-​com­er o ga-​g-​gan­hado, m-​mas má p-​pró g-​gan­har!

  Fe­liz­mente chegaram as marés vi­vas. E tem havi­do faina des­de o aman­hecer. To­dos têm queri­do valer-​se da far­tu­ra para terem com que cul­tur­ar a bata­ta do próx­imo ano. A pra­ia tem es­ta­do trans­for­ma­da nu­ma as­sem­bleia de famílias até lá para o norte, para o Quião, onde a azáfama não é de bar­cos nem de nas­sas -as grandes re­des em for­ma de saca -de que aqui se servem os pescadores de adubo, porque o fun­do é arenoso, mas de cor­tiços, que ha­bil­mente gov­er­nam en­tre a pene­dia, en­quan­to segam o sar­gaço com o foicin­hão.

  Ho­je é um lou­vor a Deus de bar­cos, que an­dam no baloiço das on­das. Sen­ho