te, as ra­ias, ora bor­bo­le­tas cansadas, ora er­guen­do-​se num voo, ra­bicha­do, semel­han­do pa­pa­gaios de pa­pel. E que di­ver­ti­da era a cara­paça guer­reira dos carangue­jos com as suas tesouras di­anteiras, ameaçado­ras! Às vezes, um exérci­to de es­padartes avança­va, cor­tan­do as águas com as es­padas, afi­adas. Out­ras um golfin­ho, pa­store­an­do um re­ban­ho brin­cal­hão, di­rigin­do-​se à su­per­fí­cie as­so­bian­do pe­los ir­mãos, que se atrasavam, cam­bal­hotan­do. Fi­tas, dançantes, de safios, de mor­eias, en­laçavam-​nos, pren­di­am-​nos, por mo­men­tos. Atrav­es­savam a corti­na gelati­nosa de car­dumes-​be­bés, acaba­dos de nascer. Ol­havam jun­tos as bol­has pre­ciosas e flu­tu­antes dos náu­ti­los e em águas menos pro­fun­das os cara­mu­jos, lava­dos pe­lo cristal, movente, das águas. Aque­le mun­do es­ta­va sem­pre di­ante dos ol­hos do ra­paz, mes­mo quan­do con­ser­ta­va a re­des e o Sol de­scia no hor­izonte, es­ten­den­do so­bre as águas o seu tapete de bril­hos. Mes­mo, en­tão, o ra­paz lem­bra­va os peix­es, abrindo e fechan­do a bo­ca, lenta­mente, co­mo se res­pi­rassem cansa­dos, com os seus ol­hos de lápis-​lazúli, de topázio, ne­gros co­mo alfinetes de ónix e as suas bar­batanas, pe­nas del­icadas de ave, florindo preguiçosa­mente. Sen­tia-​se en­tre aque­la veg­etação ora cur­ta, frisa­da, car­nu­da e cres­pa, ora em­bor­bul­ha­da, capi­lar e fil­amen­tosa, ora lon­ga, lance­ola­da, fen­di­da em delta, plumen­ta, ve­lu­dosa, ora vi­va e des­gren­ha­da, míti­ca, de cristal e lu­ar. Era co­mo se nadasse en­tre aque­les tons que iam do cas­tan­ho-​ter­ra aos verdes vi­dren­tos, pas­san­do pe­los rox­os ma cera dos, os coral, os rosa e os vi­ole­ta. Pas­savam di­ante dos seus ol­hos aque­las for­mas es­pi­ral­adas, ovóides, de fu­so, den­teadas e ten­tac­ulares, mas sem­pre lev­emente boleadas co­mo se to­das con­tivessem o en­ro­lar da on­da. Aque­las som­bras limosas, fos­fores­centes, den­sas e mis­te­riosas, diá­fanas, com transparên­cias ve­ladas e fan­tas­mais, daque­le mun­do grá­cil, sem pe­so, on­du­lante. 

  Para agrade­cer à sua ami­ga a beleza, que ela to­dos os dias lhe en­tre­ga­va, o ra­paz com­prou-​lhe um pre­sente, no mer­ca­do, onde ia vender o peixe e as suas con­chas. 

  E quan­do, ao pé do nin­ho dos pene­dos, onde se en­con­travam, abriu sob as águas a sua mão fecha­da soltou-​se dela um fil­amen­to vi­vo, on­du­lante e es­car­late. 

  -O que é? -per­gun­tou a sereia. 

  É uma fi­ta para atares os ca­be­los, co­mo as ra­pari­gas da Ter­ra. 

  -Que lin­da cor! 

  -É a cor do sangue e da vi­da. A mais pre­ciosa da ter­ra e do mar. É a cor dos teus lábios -disse o ra­paz. 

  En­tão, a sereia er­gueu com os braços os seus lon­gos ca­be­los e ele pren­deu com aque­le laço de sangue as al­gas noc­tur­nas, que lhe afo­gavam o ros­to.

  -Nun­ca mais o tirarei -prom­eteu. -Só quan­do me trans­for­mar em es­puma. 

  -E por que havias de te trans­for­mar em es­puma? 

  -Tu­do o que é ter­ra voltará à ter­ra. Tu­do o que é água se tornará em es­puma. 

  -Is­so não acon­te­cerá nun­ca -afir­mou, con­vic­to o ra­paz. Tu mes­ma diss­es­te que eras um son­ho. Os son­hos não en­vel­he­cem e por is­so não mor­rerás nun­ca. 

  E foram os dois nadar, fe­lizes, por estarem jun­tos. 

  Ao out­ro dia a sereia disse-​lhe: 

  -Ho­je tam­bém ten­ho um pre­sente para ti. Vou levar-​te às raízes mais sec­re­tas do mar, onde dormem, an­co­ra­dos para to­do o sem­pre, os veleiros naufra­ga­dos. 

  E de mãos dadas, nu­ma ver­tigem, de­sce­ram às águas ca­da vez mais pro­fun­das. Das en­tran­has das fun­duras jor­ravam cau­dais quentes for­man­do oá­sis que t