or­navam lux­uri­antes, co­mo palmeiras, as al­gas, naque­les de­ser­tos sub­aquáti­cos e sem sol. Ali a luz fil­tra­va-​se já di­fi­cul­tosa­mente e o azul aden­sa­va-​se, céu noc­turno, onde as medusas, oféli­cas, lu­as de se­da vel­ha, puí­da e es­garça­da, flu­tu­avam. E súbito, en­tre cen­táureas gi­gan­tescas, es­treme­centes e ape­sar dis­so ir­reais, os veleiros sur­gi­ram das bru­mas líquidas, ver­do­en­gas, com as suas proas tra­bal­hadas, os seus mas­tros nus, der­ro­ta­dos e par­tidos. Lá es­ta­va o vel­ho galeão com as suas câ­maras es­ven­tradas, que car­dumes vi­ajavam. Ali, tin­ha a sereia apren­di­do a solidão na água-​fixa do es­pel­ho. Ali, sabia ago­ra o ra­paz a fe­li­ci­dade do son­ho -e am­bos a ale­gria de ter com quem par­til­há-​lo. 

  O tem­po pare­cia imo­bi­liza­do por aque­le con­tenta­men­to, igual, que se repetia, mas os dias pas­savam, ir­recu­peráveis. 

  Nu­ma man­hã, o ra­paz anun­ciou à sua ami­ga que ao out­ro dia ia faz­er-​se às águas e par­tiria com os pescadores, pois já não era mais um ra­paz­in­ho e pre­cisa­va de gan­har o seu sus­ten­to. 

  Na ter­ra os al­imen­tos não flo­ri­am co­mo no mar?! es­tran­hou a sereia. 

  O ra­paz ex­pli­cou-​lhe que a ter­ra tam­bém flo­res­cia em fru­tos, mas que pre­cisa­va de ser se­mea­da e trata­da para pro­duzir. Havia home­ns que se ded­icavam àque­les tra­bal­hos, mas ele vivera sem­pre à beira da água e tin­ha a paixão do mar. Ia tornar-​se pescador. Tro­caria de­pois o pro­du­to da sua pesca por al­imen­tos da ter­ra. 

  -En­tão, vou deixar de te ver... -disse a sereia, triste. É co­mo deixar de ex­is­tir.

  -Não, não -garan­tiu o ra­paz. -Virei sem­pre que pud­er, ao fim da tarde. Não te es­que­cerei. 

  E as­sim pas­sou a ser. O ra­paz an­da­va em com­pan­ha, na pesca, ia ao mer­ca­do vender o peixe, con­ser­ta­va as re­des e a vela, trata­va do bar­co, mas o seu maior gos­to era mer­gul­har e es­tar com a sua ami­ga. 

  -Co­mo vês na­da mu­dou. 

  E con­ta­va-​lhe, longa­mente, o mar sem fim, cin­za e bru­ma, azul e verde, grosso e pe­sa­do de águas-​vi­vas, es­camoso dos bril­hos da su­per­fí­cie, o es­forço para vencer a foice das on­das, o tra­bal­ho dos re­mos e das re­des, os peri­gos que o espre­itavam: as tem­pes­tades, a névoa e os roche­dos. 

  -Tem cuida­do! -re­comen­da­va-​lhe ela, sem­pre que vin­ha trazê-​lo até onde se de­spe­di­am. -Pre­ciso de ti para res­pi­rar! 

  -Não te afli­jas! Aman­hã, aqui, estarei! 

  E para a sossegar pousa­va a mão so­bre a flor de sangue que lhe ata­va os ca­be­los, sol­enizan­do com um gesto de ju­ra as suas palavras. 

  O Sol começa­va a ar­ras­tar so­bre as águas o seu man­to de bril­hos e de­spe­di­am-​se.

  E as­sim con­tin­uaram nu­ma eternidade, sem mar­gens, en­vol­ta em mare­sia e no per­fume nup­cial e bran­co dos lírios das dunas -que o ra­paz lhe trazia para ela en­feitar os ca­be­los. 

  Uma tarde a sereia veio, in­qui­eta, espre­itar a or­la da pra­ia. Não era ain­da a ho­ra de se en­con­trar com o seu ami­go, mas na raiz dos abis­mos es­ta­va a for­mar-​se um tem­po­ral que subia das pro­fun­dezas, em cachões re­voltos e ela temia por ele. 

  Os bar­cos, co­mo re­ceara, não tin­ham ain­da recol­hi­do. Nen­hum es­ta­va vara­do na pon­ta sul. 

  As nu­vens acastelavam-​se, ameaçado­ras, o ven­to começa­va a ru­gir e a en­raivar-​se, co­mo se o céu quisesse do­brar e re­flec­tir a re­vol­ta do mar. 

  En­tão, mer­gul­hou no­va­mente e nadou em di­recção ao largo, espre­itan­do as va­gas, al­tas, es­pumosas, lequeadas pe­lo ven­to. Não havia sinais de bar­co na lin­ha do hor­izonte. O seu ami­go ia ser apan­hado pela tem­pes­tade no longe e n