a dis­tân­cia. Com aflição re­do­bra­da, mer­gul­ha­va para lo­go em segui­da vir espre­itar ao cimo das va­gas, in­quirindo as voltas do mar, es­cure­ci­do, fer­vente, tem­pes­tu­oso. Fi­tas de luz cor­tavam o céu que se fendia com fragor. E foi a um clarão dess­es relâm­pa­gos que ela avis­tou o bar­co, já sem vela e sem gov­er­no, a de­scon­jun­tar-​se, quase a ser en­goli­do pe­los va­gal­hões. Pre­cisa­va so­cor­rer o seu ami­go, pois o coração dizia-​lhe que era ele. O ven­to as­so­bi­ava e quase lhe ar­ran­ca­va o laço dos seus ca­be­los em­purran­do as on­das, cavadas, al­terosas que se en­tre­chocavam num ro­lar sur­do e es­pan­ca­do, en­quan­to ela na­da­va, rap­ida­mente, na di­recção do bar­co que já não con­seguiria atin­gir as águas mais ma­cias e mais pro­te­gi­das da en­sea­da. Por baixo do cute­lo das va­gas, ten­ta­va ela vencer a dis­tân­cia que os sep­ar­ava. Mas, quan­do veio à su­per­fí­cie para poder ser vista pe­lo ra­paz, uma on­da atirou-​a de en­con­tro à quil­ha do bar­co, que en­tre­tan­to se de­scon­jun­tara, e lhe ras­gou o peito. Ape­sar da dor lanci­nante, que a frieza das águas co­mo que aneste­si­ava, ten­tou man­ter-​se per­to dos de­stroços. O ra­paz, per­di­dos já os com­pan­heiros, mantin­ha-​se agar­ra­do à cana do leme, mas as águas vi­olen­tas sub­mer­giam-​no e su­fo­cavam-​no. «Não verei mais a ter­ra» -pen­sou em deixar de lu­tar. Foi nes­sa al­tura que a sereia con­seguiu al­cançá-​lo, ten­tan­do man­tê-​lo ao lume d'água, en­costa­do ao peito, que lhe san­gra­va com o es­forço. A chu­va desabara, tor­ren­cial. Os relâm­pa­gos ce­gavam-​na, o ven­to fusti­ga­va-​lhe os ca­be­los que lhe chicoteavam o ros­to. Re­unin­do as úl­ti­mas forças que lhe restavam, pois se sen­tia mor­rer e o ra­paz des­ma­ia­do era um far­do pe­sa­do, sorvia o ar, di­latada­mente, ten­tan­do res­pi­rar ain­da, ten­tan­do con­seguir en­trar nas águas mais pro­te­gi­das e menos vi­olen­tas da en­sea­da... ten­tan­do sal­var o seu ami­go... 

  Quan­do abriu os ol­hos, o ra­paz viu-​se deita­do no ex­tremo norte da pra­ia onde cos­tu­mavam de­spedir-​se. 

  As gaiv­otas, em ter­ra, pinçavam o ar de gri­tos, co­mo se pran­te­assem uma dor que as águas, já apla­cadas, ador­men­tavam. 

  Lenta­mente, co­mo se re­tomasse a cus­to a con­sciên­cia, o ra­paz respirou o ar mar­in­ho, forte e fa­mil­iar. E per­cor­reu o cor­po com as mãos para se sen­tir. As mãos, porém, vier­am-​lhe en­char­cadas em sangue que tam­bém lhe en­sopa­va o peito e a camisa. Cu­rioso, não sen­tia nen­hu­ma dor, ape­nas um enorme cansaço. No­va­mente, voltou a cor­rer-​se com as mãos à procu­ra de uma feri­da ou golpe que ex­pli­cas­se to­do aque­le sangue, mas não es­ta­va feri­do. Ten­tou, en­tão, er­guer-​se e ao fazê-​lo viu na bor­da da rocha, quase a ser lam­bi­da e lev­ada pelas águas, a fi­ta ver­mel­ha que tin­ha ofer­eci­do à sua ami­ga para ela atar os ca­be­los. «De­volvia-​lhe o pre­sente?», pen­sou com uma dor, que o ras­ga­va, à me­di­da que com­preen­dia. Não, não, não lhe de­volvia o pre­sente. Aque­le sangue era o dela. Fo­ra ela quem mais uma vez o sal­vara e o troux­era até ali, ali deixan­do aque­le pen­hor de amizade a que só ele con­hecia o sig­nifi­ca­do. «Nun­ca o tirarei. Só quan­do me trans­for­mar em es­puma», prom­etera. Com de­ses­pero, com­preen­deu que des­ta vez ela tin­ha pa­go com a vi­da a vi­da dele. E ape­sar de ex­aus­to, mer­gul­hou, son­dan­do o mar e os abis­mos. Mas, em vão! Sem ela não po­dia de­scer até aos jardins mais be­los e mais se­cre­tos, onde re­pousaria, antes de se trans­for­mar em es­puma. Nun­ca mais a ve­ria. As lá­gri­mas tol­davam-​lhe a vista da p