ra­ia, onde cer­ta­mente to­dos o dari­am por per­di­do e ninguém já o es­per­ava. Que difí­cil era res­pi­rar sem ela! En­tão, de­ses­per­ada­mente, do fun­do da lem­brança e das lá­gri­mas trouxe a sua ami­ga à flor das águas e pare­ceu-​lhe ou­vi-​la diz­er-​lhe uma out­ra vez «Ex­is­to por que tu me son­has.» Não, não, nun­ca deixaria de a son­har. Ago­ra, ela era real­mente um son­ho dele, uma res­pi­ração sua. En­quan­to ele res­pi­rasse ela res­pi­ra­va. Ex­is­tia nele e por ele. Nun­ca mais es­tari­am sep­ara­dos. Até à morte. En­tão, a tem­pes­tade da sua dor acal­mou -asa de ven­to col­hi­da na névoa. E o ra­paz nadou em di­recção a ter­ra. 

  A tarde caía. E a maré, jade, rosa e anil, re­começa­va a subir, re­co­brindo os jardins da maré vaza, apa­gan­do os ras­tos das on­das min­guantes. No are­al, des­fol­havam-​se ro­los de es­puma bran­ca e, so­bre as águas, o úl­ti­mo voo das gaiv­otas. 

  As es­tre­las fu­ram a noite com mil ol­hos de fo­go de­bruça­dos so­bre as águas. Son­dam os abis­mos? Ou i1udem-​se, nos ecos do seu próprio son­har?

  Que pas­tor d'águas buz­ina, longa­mente, chaman­do on­das e es­puma por en­tre a cer­ração e a névoa da an­te­man­hã? 

  Vai já al­to o dia, mas vesti­do de cin­zas. O ven­to começa a levedar as on­das que se de­spen­ham, grossas de es­puma e com cin­tas de sar­gaço, aboiadas. A vel­ha Olin­da lá an­da en­tre os poucos pra­iantes, que a nor­ta­da não as­sus­tou. 

  -O ar­gaço der­ramou-​se mais pró sul, pra lá da Fragosa e da Lagoa, onde o mar tem mais ache­gos e onde ele se prende mais. Aqui é menos, mas temos que ir aprovei­tan­do o que o Sen­hor dá. 

  Os vel­hos não se po­dem dar ao luxo de o des­perdiçar. É as­sim que provam que ain­da aju­dam à pan­ela da família. E a vel­ha Olin­da, que ain­da con­heci for­mosa e de­sem­pe­na­da, ar­ras­ta-​se pela beira­da, com a grave­ta, pren­den­do as fi­tas fugidias. 

  -Que remé­dio! A vel­hice é muito triste. Ninguém nos quer, já não temos prés­ti­mo, mas temos bo­ca e por is­so an­de­mos com to­do o tem­po... Já pouco pos­so coa grave­ta e o gan­ha-​pão, as min­has forças gas­taram-​se. Mas é pre­ciso com­prar tu­do tão caro que não se reg­iste... Salve ao menos o Sagra­do Coração as nos­sas al­mas! 

  In­difer­entes aos cuida­dos hu­manos, as pom­bas fazem ao moin­ho vel­ho uma au­réo­la de asas. 

  Maré-​cheia. Até San­to An­dré o mar é uma man­ta re­vol­ta de es­pumas. Um som fraguen­to que se des­do­bra pela pra­ia e ecoa pela abóba­da cinzen­ta do céu. Só es­tão a de­scober­to as bal­izas da en­sea­da: For­ca­da e For­cade­lo. Tu­do o mais é uma mas­sa in­qui­eta d'água, que sobe cos­ta aci­ma.

  -Acu­dide aos bar­cos! -ou­ve-​se bar­regar. 

  O Al­cin­dro, o Ma­ia­to e a mul­her, a Er­melin­da e o ra­pazio tu­do vem acaute­lar aprestos e em­bar­cações. 

  -O mar traz muito mau tem­po co ele! Nun­ca se viu uma mare­sia de mar as­sim, neste tem­po! Is­to foi tem­po­ral lá fo­ra a muitas mil­has daqui e que ago­ra, vem dar à cos­ta. É um fo­go vi­vo! Num in­stante co­mo se pus! Rechãoz­in­ho e acar­in­hado pela man­hã e ago­ra, in­gole a pra­ia... É as­sim cuma nós, tão de­pres­sa vi­vo co­mo mor­to... 

  Os bar­cos fi­cam no varadoiro de cima, quase recol­hi­dos ao bafo do meu tel­ha­do. 

  A maré con­tin­ua a subir, vi­olen­ta, es­pumosa, es­pan­ca­da. As on­das for­mam-​se às cin­co e às seis, pouco de­pois da lin­ha do hor­izonte, ex­plodin­do em cachões na For­ca­da, rolan­do e cain­do com um rugi­do de tro­vão, en­tre rex­ios ga­lopantes, in­es­per­ados e fal­sos. A beira­da con­tin­ua sub­mer­sa de es­pumas ame­ladas – in­con­tinên­cia, in­un­dante, de es­per