­ma. A pra­ia er­ma-​se de gente e de vozes. To­dos se recol­hem a ter­ra, onde o tra­bal­ho aper­ta.

  -Os mil­hos es­tavam muito desme­dra­dos, sem calor que os pux­as­se e ago­ra veio tu­do ao mes­mo tem­po: o serô­dio e o tem­porão. Tem si­do uma lu­fa -queixa-​se a Maria Repas -e pró quê? Pra se vender tu­do por preços de non­ada. Os fig­urões da cidade é que en­gor­dam com o nos­so suor! 

  Súbito o norte começa a var­rer a cin­za e o mar tor­na-​se leitoso e lam­ina­do de sol. O céu abre-​se e azu­la-​se, lava­do. E o mar azulesce tam­bém, mais e mais. As es­pumas tor­nam-​se crinas, sel­vagens e bran­cas, du­ma pureza sali­na. E aque­las bran­curas, in­son­dadas dos abis­mos oceâni­cos, sub­mergem mo­men­tanea­mente For­ca­da e For­cade­lo e es­pra­iam-​se nu­ma ex­ten­são de quilómet­ros. 

  -Já vaza! Já vaza! -gri­ta, aten­to, o ra­pazio, que se di­verte a ne­gacear as on­das. 

  E a casa-​con­cha, que es­teve cer­ca­da e foi il­ha, deix­ada ago­ra pela maré, re­frac­ta-​se, qual mi­ragem, no braço de águas azuis, en­tradas pe­lo abre­mar. 

  Não, não é o ven­to da tarde. 

  É a tua lem­brança que se er­gue em mim. Tua ex­istên­cia-​son­ho, teu per­fume-​ausên­cia in­sin­uam-​se neste mor­rer do dia. Na ter­ra, ain­da al­gu­mas, pou­cas, coisas te ref­er­en­ci­am. Os lírios con­tin­uam a florir. E o seu odor, se­cre­to, in­ten­so, sen­su­al, atinge a fím­bria das águas, mas a sua carne leitosa apo­drece, en­tre o sar­gaço es­ten­di­do a se­car. Ninguém tos le­va. Nem tu podes já en­feitar com eles os teus ca­be­los. As es­tre­las con­tin­uam pre­gadas na noite, mas é mu­da a tua canção. Só o ven­to a geme lon­ga, longa­mente -e tu jazes, in­acessív­el, nos frios paraí­sos do coração do mar. Imen­sa­mente fun­do. En­tre as flo­res, lunares, das cen­táureas, sem­pre vi­vas, co­mo son­hos res­pi­ra­dos, dormes tu -a que fos­te ama­da, e so­bre ti o tem­po não tem poder. O meu coração, e só ele, te sabe sob as águas e as es­pumas, que te sepul­tam -flo­ração de asas e aloen­dros...

  Lon­ga, lon­ga, longa­mente, um gemi­do per­furante, que não fin­da, in­cu­ba-​se no nevoeiro, neb­ulosa al­go­doa­da e cin­za, que amas­sa ter­ra e mar. Fria, mas não lu­bri­na. 

  Ter­ra aden­tro o dia terá começa­do, terá, mas não ago­ra que não há fainas e os primeiros pra­iantes ain­da tar­darão. Paira uma qui­etude de an­te­man­hã, ain­da de pios e de asas adorme­ci­das. Só eu e a min­ha janela, que a névoa ce­ga, es­ta­mos aber­tas ao marul­ha­do das águas. 

  A névoa dis­sipou-​se. Céu azul, trans­par­ente -um oceano de luz. Dois ban­dos de gaiv­ot­in­has no­vas an­dam a loló, ao sa­bor das águas mansas e, de vez em quan­do, er­guem-​se num voo, baixo, de bor­bo­le­tas. 

  De­sas­sossega­da, a Natália espre­ita o norte, pois o Joaquim não se sofreu mais e saiu com o Cin­dro e foram pescar à cana. 

  -Já le an­da­va a puxar faz dias... e o mar tem es­ta­do muito em mo­do. Mas ca­da um teme pe­los seus. A es­ta ho­ra já cá de­vi­am de es­tar. Tar­dam. Já tar­dam. 

  E a Natália corre no­va­mente a casa, não vá o ne­to acor­dar e ver-​se soz­in­ho.

  Tam­bém eu faço con­tas às ho­ras. O Fer­nand­in­ho deve es­tar a vir de­safi­ar-​me para a beira­da. Mal me sen­to na areia, mete-​se lo­go na água, donde só sai para me en­tre­gar tesouros: es­tre­las, conch­in­has, pe­dras gliceri­nadas co­mo sabõez­in­hos de bonecas, amare­lin­has co­mo tremoços, ardósias do país dos anões, lu­az­in­has translú­ci­das, fi­tas de sar­gaço para as min­has sandálias gre­gas, ou para co­lares com pin­gentes de chorão do mar, al­gas verdes e frisadas para jardinz­in­hos empe­dra­dos, que de­sen­ho na areia. Já sabe jun