­tar as le­tras e cresceu, mas não tan­to que deixe de chorar, quan­do o lev­am de mim.

  Duas gaiv­ot­in­has afoitaram-​se a pois­ar nas dunas do tel­ha­do, por breves, brevez­in­hos in­stantes, sem tem­po de lh­es pedir que fi­cas­sem. Um bar­co cor­ta as águas em di­recção às Pe­dras do Can­to. Sossega, en­fim, o coração da Natália que acorre ao varadoiro. 

  Só o meu com­pan­heir­in­ho não apon­ta ain­da.

  O Sol aguil­hoa as areias es­cal­dantes e es­pel­ha-​se em bril­hos no mar liso, liso -co­mo se tivesse si­do afeiçoa­do à plaina. É difí­cil acred­itar que este mar de bil­hete-​postal, com fes­tões de es­pumas jun­to aos pene­dos, pos­sa tornar-​se naque­le out­ro de In­ver­no, con­vul­so e fer­vente, naufrá­gio de nu­vens, que longe destas costas, muito ao sul de Lis­boa, os en­goliu para sem­pre. 

  -Co­mo é que as­sim de­sa­parece um navio pesqueiro, sem deixar ras­to, nem de­stroços?! -es­tran­hei eu ao Afon­so, o gen­ro do Zé, que perdeu dois ir­mãos. 

  -Aque­las águas são de temer e pos­so dizê-​lo, porque tam­bém lá an­dei em­bar­ca­do. O mar é cheio de re­moin­hos, em para­fu­so, traiçoeiro. 

  E lem­bro-​me, en­tão, que em Casablan­ca lhe chamavam «ol­ho de ra­posa». Lá ficaram Fran­cis­co Figueire­do Mar­ques, Joaquim Sen­cadas da Torre, Hernâni da Sil­va An­dré, Manuel da Sil­va An­dré, An­dré Manuel da Sil­va Ser­ra com os out­ros com­pan­heiros do Driss. Sen­ti so­bre­tu­do a dor da Gui­da, min­ha viz­in­ha, que en­vel­he­ceu anos des­de Novem­bro, quan­do pos­to de parte o apre­sa­men­to pela Polisário, e ten­do pas­sa­do dezanove dias, se perder­am as es­per­anças, se de­ram por find­as as bus­cas e eles por per­di­dos. 

  -Desaba­far?! Desaba­far praquê? O des­gos­to tol­he-​me a fala. E ninguém es­tá in­ter­es­sa­do em queixas... Na al­tura sim, por cu­riosi­dade, mas a morte dos oitros es­quece de­pres­sa. E o meu fil­hin­ho só a mim faz fal­ta e ao desin­fe­liz que deixou sem pai. A mim im­parou-​me até à idad­in­ha de vinte e seis anos e mes­mo de­spois de casa­do es­ta­va sem­pre a vir ver se eu pre­cisa­va de uma mãoz­in­ha, se tin­ha que com­er... Era muito amoráv­el!...Co­mo foi? Abal­ra­men­to? Naufrá­gio? Golpe de mar? Estes su­pores foram to­dos es­crev­idos nos jor­nais com os re­tratos de­les, al­guns de can­do er­am in­da in­ocentes de primeira co­munhão, mas os des­gos­tos não cabem em nen­hum pa­pel, só no coração da gente. An­de­mos uns poucos de tem­pos com o coração nas mãos: ago­ra tinde es­per­ança qu'in­da es­tão vivos, lo­go chorai, porque es­tarão mor­tos. E mor­tos es­tavam, sepul­ta­dos nas águas. Já lá vão nove meses! A tele­visão deu naque­la al­tura que hou­ve um al­evante de mar práque­las ban­das. Have­ria, mas o cer­to, cer­to é que Deus não os lev­ou a por­to de sal­va­men­to, de­spois que a 25 de Out­ubro saíram de Lis­boa. Nun­ca chegaram a Agadir, onde iam dar começo à faina da pesca ao Largo da Mau­ritâ­nia. Diz que, era bô e ele que es­ta­va em prencí­pios de vi­da, pois tin­ha casa­do há um ano lá foi, na es­per­ança de traz­er din­heiro limpo, din­heiro for­ro, por mor de in­di­re­itar a vid­in­ha. Mas a sinas e des­ti­nos ninguém fuge e lá fi­cou na primeira vi­age, ele e os com­pan­heiros, sem tem­po de ai ou so­cor­ro. Foram in­goli­dos pelas águas mardi­tas, sem sinal. Na­da aboiou, nem tábua, nem bal­sa sal­va-​vi­das, ou cor­po. Na­da veio à deri­va. O mar não deu si­quer um far­rap­in­ho de camisa. Lá ficaram no pro­fun­do sem vir a chão sagra­do. Meu fil­hin­ho! Min­ha saudade! Foi o Na­tal mais ne­gro da min­ha vi­da de viú­va. Sem home, sem fil­ho e sem es­per­ança! Ver­ti mui­ta lá­gri­ma. De­safoguei-​me em gri­tos co­mo oitras, mães e vi