­vas. Mas de­spois se­quei. Era só um afronta­men­to, uma ag­onia, co­mo se tivesse en­gravi­da­do no­va­mente, mas de dor. Aque­le lu­gar à mesa sem­pre vazio a ol­har para mim. Soz­in­ha. Só co de­sam­paro do net­inho sem pai e que à me­di­da que cresce é um re­tra­to vi­vo que ali es­tá a lem­brá-​lo, sem­pre a lem­brá-​lo... 

  Po­bre Gui­da! Já não a verei mais ape­ga­da à mi­gal­ha do «ar­gaço», ago­ra vel­ha, doente e sem um braço de «home» que a am­pare! 

  Falei de­pois com a Reina so­bre as viú­vas, mas ela sem­pre re­al­ista, co­men­tou: 

  -Naque­la al­tura foi um pran­to cor­ri­do. Tan­tas vi­das ceifadas na flor, pois nen­hum era vel­ho. Al­gu­mas diziam que se matavam. Mas foram falas, de­ses­per­os. Tu­do pas­sa. A vi­da es­tá sem­pre a co­brir a morte. Já há quem ande grávi­da doutro home e in­da não pas­sou um ano que is­to foi! Os des­gos­tos não du­ram sem­pre. O cor­po tem fome to­dos os dias e mais do que uma vez!

  Mar verde, ra­ja­do de azuis, com al­gu­mas pé­ta­las de rosa, es­parsas, ago­ra que a tarde se fi­na. A pra­ia, quase sem gente, começa a mostrar a on­du­lação das dunas, a larga con­cha líqui­da e a vastidão do hor­izonte, que um veleiro de­sen­ha e sub­lin­ha. Mas não é mais a mes­ma. Não se vê uma car­reia, um far­rap­in­ho de sar­gaço, nem poitas, nem nas­sas, nem cor­dame. Da beira­da de­sa­pare­ce­ram a Er­melin­da, a Joaquina, a tia Olin­da, o An­tónio Ne­to, o Zé e o Joaquim Rus­so, a Gui­da, a Maria Per­ica. Só três bar­cos con­tin­uam a re­si­stir e a não quer­er mor­rer. 

  Antiga­mente, ai antiga­mente, a es­ta ho­ra subi­am na noite, jun­ta­mente com as chamas do acam­pa­men­to, canti­gas e sons de vi­ola, que re­spon­di­am da ter­ra ao cân­ti­co da maré. E as ciganas mais no­vas, ain­da a son­har a vi­da, vin­ham var­rer com as suas sa­ias dançantes e lon­gas, as es­pumas da beira­da. Já não é mais as­sim. Para lá do abre­mar não há bur­ri­cos re­gal­ados daque­le verde, crave­ja­do de macela, nem a boémia das car­roças, nem fog­aréus fes­tivos. Só o cam­po de fute­bol, en­quadra­do pe­lo colmeal dos pré­dios, que bor­de­jam a estra­da, cor­ri­da dos lumes dos car­ros, na ida ou na vin­da da Póvoa. A noite não é mais um con­vite ao jardim das es­tre­las. Vai longe o tem­po em que eu nin­ha­va no tel­ha­do, fecha­da pela abóba­da lu­cilante das es­tre­las. Ago­ra as luzes da ter­ra fazem es­que­cer aque­las flo­res de fo­go e a face, mis­te­riosa e do­lori­da, da lua. Nin­ho ca­da vez menos no tel­ha­do e recol­ho-​me, ca­da vez mais, a mim. Co­mo a Gui­da, que a es­ta ho­ra es­tá a «bo­tar» o terço e a sufra­gar a al­ma dos seus mor­tos, que a es­per­am para lá do de­scon­heci­do, já que tu­do fin­da menos a morte e a vi­da que se al­imen­tam uma da out­ra. Aman­hã será out­ro dia. O Sol nascerá co­mo sem­pre na janela de ter­ra e mor­rerá na janela do mar.

  -Solucem-​me, águas da maré, solucem-​me, porque tam­bém eu mor­ro um pouco to­dos os dias! 

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