ra das Neves. S. Pe­dro. Sagra­da Família. Va­mos com Deus. E out­ros. Só o Fliz Ven­tu­ra se que­dou, aban­don­ado à min­ha por­ta. E uma ra­parigu­in­ha solitária, sem ir­mãos que a tornem mãe, bal­ança-​se nu­ma cor­da, que lhe pas­sou pela proa. Os ra­pazes di­vertem-​se fazen­do deslizar as canelas, co­mo se fos­sem trenós, so­bre os paus ro­la­dos. Mas às vezes um ou out­ro aban­dona a brin­cadeira à voz im­pe­riosa da mãe: 

  -Ó des­graça­do! Vai pe­gar na meni­na que es­tá a chorar!

  -Já aí vêm os nos­sos! Despacha-​te, An­tónio! 

  A areia es­tá to­da re­volvi­da pe­lo vai-​e-​vem car­rega­do das car­relas que as mul­heres, faixa pre­ta a cin­gir-​lh­es os rins, trans­portam afanosa­mente. Já há quem es­ten­da as primeiras col­heitas e um ventin­ho fres­co de­spen­teia, nas grave­tas, o doura­do húmi­do e mar­in­ho do sar­gaço que, as­sim ao sol, tem a on­du­lação do ca­be­lo das sereias. 

  Uma família traz um bar­co para ri­ba, rolan­do-​lhe a quil­ha en­se­ba­da so­bre os paus anaval­ha­dos com a mar­ca fa­mil­iar. Out­ros es­per­am ain­da o re­gres­so dos seus. Mas quase não há pal­mo de areia que não ten­ha um tal­hão a en­fer­ru­jar-​se e a acas­tan­har-​se ao sol. 


  Al­moça-​se, em gru­pos. Car­relas ao al­to. Nas­sas e cor­dame a se­car. Muitos não voltarão a faz­er-​se às on­das. Gente an­fíbia, pés nos lameiros e braços nos re­mos, a tarde vão dá-​la às leiras. O Maçães deu o tra­bal­ho por fin­do. Pi­ta um cigar­ro e limpa o bar­co com o verte­douro. Ain­da quer ir dar uma ol­hadela ao mil­hão.

  -Pois que remé­dio! O din­heiro não chega para en­frentar tu­do e a ter­ra com ze­lo e cuida­do sem­pre dá. Sem­pre são os fei­jões, as batatas, as cou­ves pró cal­do e o mil­hin­ho e o pão que se for­ram. Ol­he os que só têm a arte! Lá an­dam na sardinha e no ba­cal­hau, e se as coisas cor­rem de feição, vêm cheios. Mas quê? En­quan­to eles por lá an­dam as mul­heres e os fil­hos pas­sam naci­dade e até fome. Quan­do chegam es­tão em­pen­hados. Têm de com­prar o com­er e o ve­stir. Não chegam a for­rar na­da. De­pois, sem ocu­pação, con­sumem o resto na taber­na. O mar não chega para ocu­par um homem. É só faina de Verão.

  Este é o ar­ra­zoa­do do Maçães que tem ter­ras, mas os que as não têm? Muitos nem leiras nem bar­co. São força­dos a as­sol­dadar-​se aos dias e às man­hãs e, co­mo o ano tem si­do fal­heiro, nem os po­bres fazem uma mantin­ha de sar­gaço com a aju­da do gan­ha-​pão.

  Fim de tarde. Chegam as primeiras car­roças que vêm recol­her o sar­gaço es­ten­di­do a se­car. De súbito, uma voz ras­ga a pra­ia: Ar­ga-​a-​a-​a-​aço! Ar­ga-​a-​a-​a-​aço! É co­mo um toque a re­bate. Vin­das de to­dos os la­dos da aldeia acor­rem mul­heres ar­madas de gan­ha-​pão e grave­ta. Parece um mo­tim. Meti­das na água até aos peitos, sem me­do da viveza das on­das, nem do frio da nor­ta­da, dis­põem-​se a ar­ran­car o pão ao mar. 

  In­difer­entes, os das car­roças con­tin­uam a car­regar o sar­gaço que os fa­mil­iares vão em­pade­lando num jeito, to­do agrí­co­la. São os donos dos bar­cos e das ter­ras. Po­dem de­sprezar aque­la lu­ta pe­lo sar­gaço da beira­da. Po­dem deixá-​la à Rosária que tem o homem em­pre­ga­do vai para de­zoito meses. À Fé, à Elisa, à Fá­ti­ma que deve na far­má­cia e tem a fil­ha ca­da vez mais des­ol­ha­da pela desin­te­ria e pela rabugem dos dentes. Os fil­hos aju­dam-​nas e só os mais pe­quenos fi­cam na areia, em­bio­ca­dos em xailes. Al­guns afoitam-​se queren­do mostrar-​se adul­tos, até que as mães os repreen­dem: 

  -Arre­da daí, al­ma dana­da! Não vês que o mar es­pan­ca muito?! 

  -Corá-​á-​á-​lia! Corá-​á-