​á-​lia! Prá trás! 

  O Sol es­tá a de­sa­pare­cer so­bre o mar, oleoso, cas­tan­ho e vi­oláceo, grosso ain­da de on­das al­tas. As mul­heres são, ago­ra uma chus­ma es­cu­ra, da cor dos pene­dos. Já pou­cas car­roças es­tão na pra­ia. To­dos se apres­sam para a ceia. A nor­ta­da tor­na-​se mais fria. Pas­sam, tam­bém, as primeiras mul­heres de re­gres­so. Der­readas pela enorme cor­cun­da do gan­ha-​pão a es­cor­rer, trans­for­madas em an­imais de qua­tro patas, de tal maneira a car­ga as força a in­clinarem-​se. As­sim vão até casa, pois aque­le mi­gal­ho nem vale a pe­na ser es­ten­di­do na areia, se­cam-​no à soleira. As águas começam a mor­rer e em­bat­em já com menos fragor na For­ca­da. Em breve o sar­gaço de­sa­pare­cerá. Pas­sa out­ra mul­her. Uma out­ra. Out­ra ain­da. Pro­cis­são de an­imais, baços, na con­traluz.

  O mar é ca­da vez mais uma qui­etação car­rega­da de som­bras que a nor­ta­da parece acu­mu­lar. Os bar­cos e os re­mos, ao al­to, gan­ham uma imo­bil­idade es­táti­ca e noc­tur­na. Pela pra­ia, de­ser­ta, ga­lopa um potro no­vo, que dois ciganos in­ci­tam na cor­ri­da.

  Não tar­da que a luz nasça. 

  Era ne­ta e fil­ha de pescadores. As suas raízes, co­mo as das al­gas, es­tavam naque­la imen­sid­ão de águas sem fim. Rosi­na sabia o mar co­mo os seus de­dos. Seu re­ga­lo er­am as conch­in­has, es­tre­las, ouriços, tin­tureiros, buz­inas, que mar­cavam o ras­to das on­das, onde, pa­ciente, de­sco­bria seus tesouros. 

  Seus brin­car­es as fontes, os corguin­hos, os jardins da maré vaza, trans­par­entes de areia lava­da e qui­eta, risca­dos por car­dumes gelati­nosos, onde flo­ri­am, rox­as, ver­mel­has, verdes, as ané­monas e o mex­il­hão, aber­to, ofer­ecia o fer­rete, azul, das suas con­chas naufra­gadas.

  Quan­do ia aju­dar a varar o bar­co, o avô en­tre­ga­va-​lhe a gamela das fanecas, que não iam à lota, as da ceia. E, quan­do no cam­in­ho de casa, ele lhe pe­ga­va ao co­lo, Rosi­na pe­dia: 

  -Vo­ce­mecê não me le­va ao mar, avô? 

  -Tu és da ter­ra. O nos­so Quim é que se há-​de afaz­er a ir connosco, quan­do deitar mais cor­po. 

  -Ó avô, mas eu tam­bém que­ria ir... 

  E o avô ria daque­la teim­ice de meni­na. Rosi­na amua­va: já tão es­pi­ga­da e fazedeira e ninguém a toma­va a sério... À ho­ra da ceia, es­que­ci­da do amuo, in­sis­tia: 

  -Ó avô, co­mo é o mar longe? 

  -Co­mo queres tu que se­ja, ra­pari­ga! Co­mo o daqui. Azul, sem­pre igual. 

  Aqui­lo dizia o avô para lhe calar a bo­ca e poder falar à von­tade com o pai das más pescarias e do tem­po. O avô não era men­tideiro e sabia que o mar não era sem­pre azul. E en­tão o mar cin­za, pescoço de pom­bo? E o mar bran­co, asa de gaiv­ota? E o mar lom­bo de rui­vo, ao en­tarde­cer? E o mar azul, azuis muitos, de mex­il­hão aber­to? E o mar verde, verdes limos? Peri­gos teria. Havia de ter, pois sem­pre rezavam pe­los que an­davam so­bre as on­das. E marés havia que não er­am marés de mar, quan­do o avô e o pai ron­davam a pra­ia, se sen­tavam ao pé do bar­co, mas não se fazi­am às on­das, que reben­tavam, fer­ventes, na en­sea­da do sul, tolda­da pela ceguidão da névoa. 

  De­pois cla­rea­va. Longe, pas­savam os navios, ao rés da lin­ha, em que o mar to­ca­va o céu. Que have­ria para além? Nis­so cis­ma­va Rosi­na. Deixara, porém de faz­er per­gun­tas. À noite, fecha­va-​se, co­mo uma ané­mona, quan­do se lhe to­ca e pun­ha-​se a son­har. Fan­tasi­ava a out­ra margem da imen­sid­ão, onde mol­ha­va os pés à beira­da. A bar­ran­ha do pene­do se­ria loura, co­mo um fa­vo. La­pas em­pe­nachadas de limo e botel­ho abriri­am bo­quin­has sôfre­gas, com o movi­men­to das on­das, miú­das, de flor bran­ca, em­purradas po