r um ventin­ho brin­cal­hão, que de­spen­te­asse as guel­ras ver­mel­has e den­teadas das al­gas. Car­dumes de peix­es viri­am com­er-​lhe à mão, co­mo pin­tos. E brin­car­ia aos qua­tro cantin­hos com as pul­gas que eter­na­mente jogam aque­le jo­go no are­al. To­das as noites, co­mo quem acres­cen­ta um bei­jin­ho no­vo à fi­ada de anti­go co­lar, afeiçoa­va aque­le son­ho. Par­tia, nu­ma bar­ca de es­pumas fei­ta, a to­do o ven­to, para a out­ra margem do mar, para o longe sem fim, de além e dis­tân­cia. To­das as noites deix­ava a en­sea­da, as ca­mas de sar­gaço, es­ten­di­das a se­car e se fazia às on­das e ao son­ho. Co­mo en­con­traria o cam­in­ho? Ora, as es­tre­las subiri­am à tona para lhe in­dicar seu ru­mo, sem norte nem sul. E se fri­asse? Os peix­es ruiv­os ou as fanecas lhe trari­am um xal­in­ho, ar­ren­da­do, de chorão do mar, para agasal­ho e acabaria por chegar à out­ra margem, cheia de rochas-​gru­tas, onde o seu nome: Rosi­na-​ina-​ina, som de bazio fi­cas­se. 

  Quan­do o avô e o pai fu­mavam, cis­men­tos, a meni­na des­doba­va, lenta, o nov­elo dos son­hos e par­tia na sua bar­ca de es­pumas. 

  E to­das as noites adorme­cia, antes de chegar à out­ra margem do mar. 

  Duas pan­cadas, con­forme o com­bi­na­do. Vi o reló­gio. Cin­co menos um quar­to. Quan­do a mãe da Ri­ta e eu saí­mos para a noite, a nor­ta­da var­ria um mar cinzen­to de es­puma bati­da, mas não as es­tre­las, al­tas e claras. 

  -Bom dia! 

  -Bom dia! Boa pesca! 

  Er­am os que par­ti­am para a faneca, na es­curidão. Os cães dormi­am ain­da, mas a Ri­ta já nos es­per­ava. E, co­mo a Clemên­cia não tin­ha apare­ci­do de­sandá­mos, am­bas para o norte a chamá-​la, pois pe­gavam a tra­bal­har às seis e até à Póvoa era um es­tirão. A Clemên­cia bem o sabia e não de­mor­ou. Ago­ra era an­dar a pas­so cer­to. Chegadas ao cruzeiro mete­mos a uma az­in­haga -a do rio das cav­aleiras que pare­cia um roteiro de es­tre­las. 

  - Não se po­dem con­tar – pre­ve­niu a Ri­ta. 

  Pois não, er­am tan­tas! Mas não era is­so ex­pli­cou: con­tar es­tre­las fazia crescer cravos nas mãos, con­forme acred­ita­va a credul­idade dos seus quinze anos, tão caus­ti­ca­dos no tra­bal­ho. É du­ma família onde se tra­bal­ha duro e não tin­ha hes­ita­do em aceitar aque­le serviço, ape­sar da ho­ra e das cam­in­hadas, para aju­dar ao pão co­mum. Ao meu la­do, aconchega­va-​se na mantin­ha, que troux­era: acha que fria e que o tem­po a pede. Em A-​Ver-​O-​Mar diz-​se: «Primeiro de Agos­to, primeiro de In­ver­no» e às vezes a nor­ta­da parece con­fir­má-​lo. À nos­sa frente segue out­ro grupo, pois são cer­ca de vinte as con­tratadas pela câ­mara para var­rerem as ruas no mês em que os ban­his­tas tomam a pra­ia de as­salto. A Ri­ta con­ta: qua­tro do sul, qua­tro da beira da igre­ja, treze do norte, afi­nal vinte e uma, ao to­do. 

  As casas es­cure­cem a noite es­cu­ra, mal lava­da pe­lo ca­ia­do, baço, das pare­des. Já na estra­da na­cional, ou­vem-​se os sinos de Amor­im: a primeira mis­sa. Raros faróis san­gram o empe­dra­do. Às vezes, por es­paço breve, acom­pan­ha-​nos o baguin­ho de luz das lanter­nas das car­roças, que pas­sam a cam­in­ho da praça. Já à en­tra­da da Póvoa col­he-​nos um cheiro a pão quente e co­mo que uma man­cha, lu­arenta, de far­in­ha, lo­go es­cure­ci­da pe­los vul­tos, em­buça­dos, à por­ta da igre­ja, ain­da fecha­da. O casario dorme. E as luzes ace­sas dos can­deeiros, ao rés das ár­vores dum jardim, tor­nam o céu dis­tante. É ali que têm de ap­re­sen­tar-​se. Um grupo corre e as saquitas dos al­moços os­cil­am e ale­gram a madru­ga­da. 

  Surgem com as vas­souras ao om­bro a Maria da Graça, que tem cin­quen­ta anos e vai pa