ra os la­dos do cemitério, a Joaquina Macha­do, tam­bém de cin­quen­ta anos e a fil­ha, Jose­fi­na, de dezas­sete. Para a Av. Mouz­in­ho, a Car­oli­na Ro­drigues e a fil­ha Dores de vinte e dois. a Ana Tor­res de dezas­seis, a Maria Vitória de quinze, a Irene da Con­ceição de vinte e qua­tro, a Zul­mi­ra Sen­cadas de de­zoito, a Lour­des de vinte e nove e out­ras que se es­pal­harão por es­sas ruas. A Ri­ta e a Clemên­cia partem para a Jun­queira. Acom­pan­ho-​as. E as vas­souras começam a ar­ran­har aque­le túnel, de­ser­to, onde bóia um cheir­in­ho a pão saí­do do forno, que quase se pode trin­car nos dentes. Ten­ho a certeza que a Ri­ta é mais pe­que­na que a vas­soura. 

  -E já ma tro­caram. Es­ta, ago­ra, é mais ao meu taman­ho, mas não sou a mais no­va...

  A mais no­va é a B1an­di­na, que tem catorze anos e an­da na pra­ia do peixe no grupo da Maria do Alívio, a mais vel­ha: sessen­ta e seis anos, tão gas­tos! 

  -Quem fez a Póvoa? Os pescadores. Aque­le que além es­tá (apon­ta a es­tá­tua do cego do Maio) salvou mui­ta gente de mor­rer afo­gad­in­ha, mas que bo­ga?! A Póvoa já não é dos pescadores. Nasci aqui e aqui fui cri­ada e fui bo­ta­da fo­ra. O pré­dio, onde mora­va, na Rua lati­no Coel­ho, foi ven­di­do prós ri­cos, prós pra­iantes, e es­cor­raçaram-​nos: uns pràs Cax­inas, out­ros pra Matosin­hos. Eu que já não ten­ho ninguém fui prà Abre­mar, pró pé du­ma so­brin­ha. A sina que me to­ca é an­dar, des­ta idade, a var­rer ruas. Tan­ta gente a dormir, de nascente a poente, e nós pràqui a es­gadan­har uma côdea se­ca! -E mostra o pão de véspera, que traz no bol­so do aven­tal para o desje­jum. Um pão a que fal­ta uma bucha, que repar­tiu com uma cri­ança. 

  -Quan­to gan­ha? 

  -Vinte cin­co mil-​réis…e ela (com o de­do es­pe­ta a Blan­di­na) que ain­da não tem de­zoito, gan­ha só vinte. Is­to de­via de ser bo­ta­do a um jor­nal a ver se nos chega a re­for­ma! -Ri-​se. Um riso trági­co, de­scrente e des­den­ta­do. 

  Às seis e meia, as es­tre­las em­palide­cem e o meio anel, doura­do, da lua, azu­la-​se e es­fria. As vas­souras lev­am na frente bil­hetes de camionete, de au­to­mo­to­ra, in­vólu­cros de cigar­ros, na­cionais e es­trangeiros, bo­ca­dos de jor­nal, cas­cas de ba­nana, de melan­cia, pauz­in­hos de sorvete. 

  Os vende­dores de melão, que dormi­ram ao re­len­to, abri­ga­dos por uns caixotes e um guar­da-​chu­va, saco­dem o sono e o in­con­for­to da vi­da. O emadeira­do das bar­ra­cas e dos tol­dos veste-​se de riscas azuis, verdes, ver­mel­has, cor de canela. Pas­sam car­roças de sar­gaço. Pas­sam, caem as sete na torre de S. José, as primeiras ban­his­tas, as que se ban­ham vesti­das, agar­radas à cor­da, sen­tadas ou de joel­hos, aos grit­in­hos, sob a vig­ilân­cia do ban­heiro -céus, co­mo há trin­ta anos na in­fân­cia!...

  A es­tas ho­ras a Ri­ta e as com­pan­heiras já var­reram a Jun­queira, a Rua do Paredão, a Rua dos cafés. De­vem an­dar no Pas­seio Ale­gre. Out­ras na Rua Ser­pa Pin­to, na Aveni­da dos Ban­hos ou na es­tação. 

  Al­gu­mas comem o pão com o pre­si­go de peixe, trazi­do nas saquitas, ao fun­do da es­plana­da. É a pausa das oito para o desje­jum. 

  Que irão faz­er, quan­do forem dis­pen­sadas daque­le serviço? 

  -Is­to não é cer­to é tra­bal­ho de pouco mais e menos, não pres­ta! A gente não tem em­prego, porque se tivesse já se sabe que ninguém deix­ava o que tem pe­lo que lhe vem! Temos que nos agar­rar. Roubar é que não! -afir­ma a Maria do Alívio. -Ol­he, es­fol­har mil­ho, que vem aí o tem­po, lavar casas, o que cal­har... 

  A maior parte, co­mo a Blan­di­na e a Ana Tor­res, voltarão ao sar­gaço. A Vitória e a Maria da Graça ao cam­po. A fil­ha da Joaquina à cos­tu­ra. A Clemên­