cia vai ten­tar a fábri­ca da sardinha. 

  E aque­le din­heiro a que o des­ti­navam? 

  -É para a min­ha mãe, diz a Ri­ta. 

  -É para a côdea! afir­mam out­ras. 

  -Pouco é ele nem chega a luzir! Vai para quem se deve -queixa-​se out­ra voz. 

  -Pra que há-​de ser? A gente come ao som do que gan­ha... 

  Por es­sa uma ho­ra, voltarão, a pé, para A-​Ver-​O-​Mar. E a Ri­ta com os seus quinze anos, maneir­in­hos, terá de faz­er mais duas cam­in­hadas, quan­do vi­er vender à lota a faneca, o rui­vo, ou o bade­jo que o pai e o ir­mão tiverem pesca­do. 

  Que lhe dará a vi­da co­mo prémio? O amor físi­co, que terá de pa­gar, co­mo a mãe, com a dor de de­zoito fil­hos e a angús­tia de ter per­di­do dez? Um tra­bal­ho que, começa com es­tre­las e madru­ga­da, e afi­nal as não tira do lixo? Aman­hã é um no­vo dia. E a Ri­ta sor­ri. 

  Mar chãoz­in­ho. Águas azuis de tin­ta en­tor­na­da. A vela, ver­mel­ha, do Mon­el­has que an­da à faneca, é co­mo um er­ro mar­ca­do na mas­sa com­pacta dum di­ta­do. 

  Por en­tre os pene­dos, as­so­mam as cabeças cas­tan­has, ruças ou açafroadas dos lenços, da Lis­abete, da Cin­tra, do Ção, da Júlia, que an­dam ao botel­ho. «O tra­bal­ho do meni­no é pouco, mas quem o des­perdiça é louco», e o botel­ho corre a três mil-​réis o qui­lo. Por is­so, quan­do a Lis­abete e a Júlia, nu­ma ten­tação, se dis­traem a apan­har uma es­trela ou a perseguir um carangue­jo en­tre os limos, a Cin­tra cor­ta, cerce: «Ol­haide que eu de­pois di­go à mãe!» 

  O Ne­lo e o Be­to gozam a sua liber­dade de home­ns pe­quenos e bo­tam traineiras de la­ta. Out­ros chap­inam os cor­pos bran­cos e nus, nas poças soal­hen­tas, al­heios à névoa que o Quim faz nascer com seus mugi­dos, lon­gos, de ron­ca da Póvoa. 

  En­quan­to ajei­ta um gig­ote de mex­il­hão, para is­ca, a Zi­ra can­ta: 

  O meu amor é José

  e eu que­ria um Joaquim.

  Com tan­to home no mun­do

  Al­gum há-​de ser pra mim.

  Um ban­do de gaiv­otas perde-​se para lá do Quião, a cam­in­ho do norte. 

  A noite afeiçoa as areias, tor­na-​as on­du­lantes, suaves dunas. Dá bril­ho à Lua e tor­na mais pol­ida a lâmi­na das águas. 

  -Noite, for­mosa noite, fala-​me, não emudeças! Con­tenta-​me! Diz-​me que nasces dos meus ol­hos! 

  MOR­RER A OCI­DENTE

  Pené­lope in­can­sáv­el, a madru­ga­da destece a ur­didu­ra dos fil­tros da noite, apa­ga a ma­gia das som­bras, es­fria as es­treias. Mas não cala o ape­lo míti­co, que sobe dos abis­mos e se des­gar­ra. Co­mo lamen­to de ave, ecoa. Paira so­bre as águas. Chega até mim.

  Longe no tem­po e no fun­do do mar, era uma sereia. Es­puma de son­ho e de im­pos­sív­el, habita­va, soz­in­ha, os abis­mos azuis. Os seus ca­be­los, que er­am ne­gros co­mo a noite, en­feita­va-​os ela com es­ca­mas de sol e de lu­ar, caí­das nas águas que recol­hia nas tardes quentes ou nas noites, lu­arentas e bran­cas. En­tre corais, gru­tas, mis­te­riosas fun­duras, vivia livre e fe­liz, baloiçan­do, nas cor­rentes, o seu cor­po de ra­pari­ga que era ao mes­mo tem­po, afuse­la­do, co­mo o dos peix­es. A sua ale­gria dança­va-​a em pra­dos de ané­monas, en­tre o voo bor­bo­letea­do das ra­ias, es­quivan­do-​se ao abraço, frio, dos polvos com quem jo­ga­va ao es­conde-​es­conde, naque­la imen­sid­ão do mar, que as mon­tan­has, as vas­tas planí­cies de areias fi­nas e as flo­restas de al­gas tor­navam maior. Tin­ha seus jardins pri­va­dos com ren­ques de górg­onas, leques de del­icadas nervuras, on­du­lantes, por onde evolu­cionavam ban­dos de peix­es -semel­han­do mi­grações de pás­saros que, mu­da­mente, can­tassem o silên­cio. Mas ama­va aci­ma de tu­do o baila­do das águas-​vi­vas com suas um­be­las translú