­ci­das, ace­sas nas águas, co­mo lunárias dos abis­mos. E os bar­cos naufra­ga­dos, dormi­dos há sécu­los no fun­do do mar, com o mis­tério do mun­do dos home­ns que ela não con­hecia e lhe es­ta­va veda­do.

  Um dia, quan­do ex­plo­ra­va um vel­ho galeão doutras eras e na­da­va por en­tre as câ­maras, que tin­ham si­do os quar­tos, en­con­trou ao lev­an­tar a tam­pa de um baú fer­ru­gen­to um pedaço de água-​fixa, onde um ros­to, ex­traor­di­nar­ia­mente be­lo a ol­ha­va. De quem pode­ria ser? Em re­dor não havia ninguém -só ela e o ros­to que pare­cia mirá-​la in­ter­rog­ati­va mente e com uma bo­ca, coral-​vi­vo, desabrocha­da e a sor­rir. Se­ria o de uma mul­her de anti­gas idades que ali ficara pri­sioneira? Não, era im­pos­sív­el. Quan­do se desvi­ava o ros­to de­sa­pare­cia e o pedaço de água-​fixa tor­na­va-​se uma lua desabita­da. Mas se ela se de­bruça­va, cu­riosa, so­bre aque­le lu­ar líqui­do o ros­to volta­va tam­bém a de­bruçar-​se e a sor­rir-​lhe, com o voo, noc­turno, das so­brancel­has er­guen­do-​se so­bre uma palidez, feri­da pe­lo coral-​vi­vo da bo­ca! 

  -Quem és tu? -per­gun­tou. 

  O es­pel­ho re­flec­tiu os movi­men­tos da sua bo­ca, mas não os ecos da sua voz. 

  -És mu­da? Não podes falar? -apiedou-​se. 

  Com um gesto ten­tou afa­gar o ros­to e foi nes­sa al­tura que re­con­heceu, do­bra­dos, os movi­men­tos, fa­mil­iares, da sua mão. Aque­le ros­to era o dela! Que sen­sação es­tran­ha! E ninguém com quem poder par­til­há-​la. Ninguém para diz­er: -ol­ha! Ninguém a quem pedir: -vem! 

  E o mar que até ali sem­pre lhe pare­cera um mun­do mar­avil­hoso de in­find­áveis sur­pre­sas, tornou-​se-​lhe, súbito, uma imen­sid­ão hos­til e fria, onde se sen­tia per­di­da. Ah! co­mo in­ve­ja­va os peix­es! Tin­ham ir­mãos e ir­mãs e passeavam, em ban­dos, enx­am­ean­do as flo­restas cas­tan­has, verdes, rubras, das águas. Só ela era soz­in­ha. 

  Pas­sou, en­tão, a vir mais vezes à flor do mar in­ve­jan­do as aves, que fu­giam na liber­dade das suas asas, ou ol­han­do a fix­idez das es­tre­las, co­mo ela pre­sas no azul doutros abis­mos. Tin­ha braços e mãos, gra­ciosas, mas de que lhe servi­am? Ramos, hastes in­úteis a que ninguém se pren­de­ria. Tin­ha uma bo­ca, mas não havia ninguém para chamar ou para bei­jar. E quan­do ol­ha­va, triste, o pedaço de água-​fixa, o es­pel­ho não lhe fazia com­pan­hia, co­mo que do­bra­va ain­da a sua solidão. Nas noites de lua, en­quan­to pen­tea­va os seus ca­be­los com uma con­cha den­tea­da -can­ta­va aque­la dor de ser soz­in­ha, pois apren­dera a trans­for­mar, em can­to, a sua má­goa. 

  Quem pode­ria ou­vi-​la? Ninguém acred­ita­va já em sereias. E a sua canção, que gemia no ven­to e na noite, vin­ha que­brar-​se na or­la da pra­ia, jun­ta­mente com o can­to, par­tido, das on­das e com ele se con­fun­dia.

  Aque­la or­la tin­ha a for­ma de um cres­cente largo e aber­to. Na pon­ta sul do cres­cente havia uma cor­renteza de pene­dos -e nes­sa di­recção var­avam os pescadores os seus bar­cos. A out­ra pon­ta, que se des­fi­ava em en­seadas pe­que­nas e bo­ce­jantes, ter­mi­na­va du­ma for­ma sel­vagem e ci­clópi­ca. Nes­sa pon­ta, de­ser­ta, havia nin­hos de rochas que se er­guiam no meio das águas e as gaiv­otas so­brevoavam. 

  Na maré vaza, o mar tin­ha uma on­du­lação, quase qui­eta, sem bain­ha de es­pumas, de ond­in­has cur­tas que fazi­am um barul­hin­ho moí­do e can­tante. As águas de azul re­al fi­cavam apri­sion­adas na pene­dia da beira­da, fazen­do lante­joular o anil aqu­oso e es­curo das con­chas aber­tas do mex­il­hão naufra­ga­do, tor­nan­do de cristal os jardinz­in­hos de al­gas frisadas, de ané­monas e de ouriços