. Mas quan­do as on­das cres­ci­am, os cav­al­os da maré com as suas crinas bran­cas, soltas ao ven­to, es­car­vavam fu­riosa­mente o are­al, co­mo se quisessem apos­sar-​se da en­sea­da, que se tor­na­va uma coro­la, vi­va, de es­pumas bil­radas. 

  Nos dias de névoa, o hor­izonte cer­ra­va-​se per­to e fecha­va as por­tas do mar, búzio ressoante, mis­tério e bru­ma -a que ninguém se atre­via.

  Ora nes­sa pra­ia, vivia um ra­paz, ór­fão de pai e mãe, que aju­da­va os pescadores a varar os bar­cos, e às vezes lh­es ven­dia o peixe. Mas o seu maior gos­to era mer­gul­har nas águas pro­fun­das, onde, des­de ce­do, apren­dera a procu­rar con­chas que lev­ava tam­bém ao mer­ca­do. 

  Nu­ma man­hã em que seguia um bril­ho lu­cilante afoitou-​se mais fun­do e fi­cou com um pé pre­so nu­ma fen­da de rocha. Em vão, procurou de­spren­der-​se. De­ba­tia-​se de­ses­per­ada­mente e já se da­va por per­di­do, quan­do lhe pare­ceu ver um ros­to en­tre as al­gas. Ten­tou es­ten­der os braços. Teria es­boça­do o gesto? Sen­tia-​se mor­rer... 

  Ao abrir os ol­hos, viu-​se no nin­ho de roche­dos que se er­guiam no meio do mar, para além do ex­tremo norte da en­sea­da. Quem o teria lib­er­ta­do? Quem o teria ar­ras­ta­do até ali? O seu pé, ain­da dori­do, san­gra­va, mas es­ta­va sal­vo. Res­pi­ra­va o ar mar­in­ho e forte. Via, de no­vo, a or­la nua e fa­mil­iar da pra­ia. 

  Foi, en­tão, que ou­viu uma voz tili­tante e grá­cil, vin­da das águas. 

  -Sentes-​te bem? 

  -Sin­to -e er­gueu, rápi­do a cabeça. Mas quem és tu? 

  -Sou uma sereia... 

  E o ra­paz re­con­heceu o ros­to que vi­ra en­tre as al­gas, quan­do es­ta­va a perder o fôlego. 

  -Fos­te tu que me sal­vaste? 

  A sereia ace­nou que sim e os ca­be­los chover­am-​lhe so­bre o ros­to, es­con­den­do aque­la palidez que o rosa-​coral dos lábios fazia san­grar. 

  -Lem­bro-​me, ago­ra -con­tin­uou o ra­paz -mas co­mo es­ta­va quase a perder os sen­ti­dos pen­sei que eras uma visão. En­tre as al­gas, moventes, com o teu ros­to e os teus ca­be­los a flu­tu­ar pare­cias uma es­tran­ha flor ir­re­al. E de­pois eu pen­sa­va que tu não ex­is­tias, jul­ga­va que eras um son­ho meu... 

  -E sou -disse a sereia. Ex­is­to por que tu me son­has. Só quan­do deixares de son­har-​me, deixarei de ex­is­tir. 

  O ra­paz não co­men­tou aque­las es­tran­has palavras. Sen­tia-​se real­mente den­tro de um son­ho, ape­sar da man­hã já ter aber­to to­do o leque da sua luz. O Sol ia al­to. Os home­ns que tin­ham par­tido para a pesca, de madru­ga­da, não tar­dari­am a re­gres­sar. Es­sa certeza chamou-​o à re­al­idade.

  -Os bar­cos não tar­darão a en­trar na en­sea­da. Pre­ciso de re­gres­sar à aldeia. Mas gostaria de te voltar a ver... 

  -Quan­do pud­eres mer­gul­har, de no­vo, estarei à tua es­pera -prom­eteu a sereia. 

  E de­sa­pare­ceu nas águas, que se fecharam so­bre ela, ma­ter­nas e suaves, co­mo lábios. 

  Os dias que se seguiram pas­saram va­garosos para a im­paciên­cia do ra­paz. En­quan­to con­ser­ta­va as re­des e es­per­ava que a sua feri­da ci­ca­trizasse pen­sa­va con­stan­te­mente naque­le mun­do sub­mer­so que, súbito, gan­hara um ros­to. E cus­tavam-​lhe aque­les crepús­cu­los, lentos, que cin­tavam o hor­izonte de fo­go, tor­navam róseas as areias da beira­da e de­mor­avam a ar­ras­tar a noite com a sua mal­ha de es­tre­las e a es­per­ança de «um aman­hã». 

  Fi­nal­mente o aman­hã chegou.

  Ape­nas os bar­cos par­ti­ram na madru­ga­da e se perder­am na di­recção do norte o ra­paz começou as suas tare­fas e, mal as deu por find­as, di­rigiu-​se para o ex­tremo mais sel­vagem da en­sea­da. Nadou até ao nin­ho dos roche­dos que as gaiv­ot