as so­brevoavam. O Sol er­guia aci­ma do hor­izonte a sua crista de fo­go, pen­etran­do a ter­ra com os seus es­porões de luz e ilu­mi­nan­do a aldeia. O ra­paz es­ten­deu-​se so­bre as rochas, des­can­sou um pouco e deixou que o Sol lhe re­vig­orasse os mem­bros. De­pois, mer­gul­hou nas águas, azuis, pro­fun­das e frias. E nadou na di­recção da gru­ta, onde tin­ha fi­ca­do pre­so. En­tre as al­gas a sua ami­ga es­per­ava-​o. 

  De mãos dadas, vier­am ao lume d'água e o ra­paz con­fes­sou à sereia a sua im­paciên­cia e o quan­to se sen­tia atraí­do por aque­le mun­do sub­mari­no que era o dela. 

  Havia de mostrar-​lho um pouco to­dos os dias, já que ele não era peixe e não su­por­taria per­manecer muito tem­po na água. 

  -... E de­pois, não se pode con­ver­sar -acres­cen­tou, rindo, fes­te­jan­do a ale­gria de ter um com­pan­heiro. 

  Fe­lizes, nadaram, fiz­er­am pro­jec­tos e de­pois ela veio trazê-​lo ao nin­ho ro­choso, onde se de­spedi­ram. A sereia mer­gul­hou e o ra­paz nadou em di­recção à pra­ia, pois os bar­cos não tar­dari­am a re­gres­sar. 

  Ao out­ro dia, mal os pescadores de­sa­pare­ce­ram na cur­va, suave, do hor­izonte, o ra­paz nadou na di­recção dos roche­dos. Mas nem pre­cisou de voltar a mer­gul­har. O ros­to da sua ami­ga nascia nas águas. 

  -Vi­este es­per­ar-​me?

  Ali es­ta­va para cumprir a sua promes­sa. En­tão, a uma ve­loci­dade que pare­ceu ver­tig­inosa ao ra­paz, começaram a de­scer os abis­mos azuis. Planí­cies in­find­áveis acom­pan­havam a cur­va da ter­ra. Fi­las cer­radas de pi­cos for­mavam cadeias de mon­tan­has maiores do que as que ex­is­ti­am aci­ma do nív­el do mar. Rochas tra­bal­hadas pelas águas, semel­hantes a cat­edrais, er­guiam-​se ma­jestosas nos seus flan­cos, abrup­tos, vel­has de mil­hares de anos, mus­guen­tas de líquenes rosa, azul, turque­sa, as­salmona­dos. Cor­rentes plá­ci­das, deslo­can­do-​se, lenta­mente, lev­an­tavam nu­ven­zin­has de areia fi­na que voltavam a cair, chu­va doura­da, so­bre os jardins sub­mer­sos, onde brin­cavam peix­es-​balões, peix­es-​lu­as. Um deslum­bra­men­to! 

  Co­mo bol­has, fe­lizes, a sereia e o seu com­pan­heiro subi­am à tona d'água para o ra­paz res­pi­rar. 

  -É mar­avil­hoso o teu mun­do -não se cansa­va ele de repe­tir, pois não en­con­tra­va palavras à me­di­da da sua fe­li­ci­dade. 

  E a sereia ria, por vê-​lo tão en­can­ta­do e fe­liz. 

  De no­vo, voltaram a mer­gul­har. Pas­saram ren­ques de coral, azuis-​cin­za, ver­mel­hos-​guel­ra, bran­cos-​ra­ma­gens de sal pet­ri­fi­ca­do. Ali, os cav­al­os-​mar­in­hos com o lequez­in­ho, aber­to, das suas bar­batanas dor­sais, ex­erci­tavam um es­tran­ho giroflé para a frente e para trás, para cima e para baixo, co­mo pux­ados por elás­ti­cos in­visíveis. As les­mas do mar sem con­cha pare­ci­am far­ra­pos de al­gas, flu­tuan­do. E a beleza das ané­monas a de­speta­larem-​se com o movi­men­to das águas? Er­am co­mo flo­res de son­ho. Umas de pé­ta­las cur­tas e car­nudas lem­bravam cho­ri­na, out­ras lon­gas e fil­amen­tosas, es­tran­has ac­tí­nias não da cor do fo­go co­mo as dos jardins da ter­ra, mas azuis e translú­ci­das de lu­ar coal­ha­do.

  Ago­ra que a sereia vin­ha to­dos os dias es­perá-​lo, de­pois da par­ti­da dos bar­cos e o lev­ava naque­les voos rápi­dos e flecha­dos até aos jardins do mar, abri­am-​se para o ra­paz as por­tas daque­le mun­do que ele son­hara, mas não sabia. Tornaram-​se-​lh­es fa­mil­iares os polvos, dor­min­do con­fun­di­dos com as pe­dras, as es­tre­las-​do-​mar rox­as, amare­lo-​mil­ho, azuis, san­guíneas, deixan­do-​se ar­ras­tar pelas cor­rentes, co­mo pe­dras do cam­in­ho a um ven­to mais for