Title: Mar Implacável
Author: Jerónimo Osório de Castro
CreationDate: Mon Jul 13 12:31:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 11 11:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Mar Im­placáv­el

  Jerón­imo Os­ório de Cas­tro

  A pub­li­cação de Mar Im­placáv­el, tex­to ex­traí­do do livro Roteiro do Atlân­ti­co Norte, foi gen­til­mente au­tor­iza­da pela Ed­ito­ri­al In­quéri­to.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-20-1

  Lis­boa, Out­ubro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  MAR IM­PLACÁV­EL

  Ao en­con­tro da bru­ma 

  Lem­bro a min­ha saí­da de Lon­dres, a bor­do do «Gil Eanes». 

  En­tarde­cia quan­do larguei de Charl­ton e come­cei a de­scer o Tamisa, a cam­in­ho do mar. Foi sob uma luz triste de crepús­cu­lo que pas­sei em frente de Gravesen­da e de Green­wich, dois nomes que dec­orara des­de os ban­cos do liceu. Da primeira, ape­nas dis­tin­gui um pe­queno amon­toa­do de casas baixas, por en­tre ar­vore­do, en­quan­to que, da se­gun­da cidade, re­tive a im­agem, tão con­heci­da, do ob­ser­vatório as­tronómi­co onde se fez pas­sar o merid­iano cen­tral do nos­so fu­so horário.

  Ca­da vez mais o rio se alarga­va e a pouco e pouco con­fun­dia com o próprio mar. Sul­ca­va-​o abun­dante nave­gação mer­cante e até ao fim não deix­ei de ir ven­do ed­ifi­cações fab­ris, blo­cos com­pactos, com muitas cham­inés e muito fu­mo par­da­cen­to, con­spur­can­do as man­chas do casario baixo e o verde som­brio dos pin­hais ou dos pra­dos ribeir­in­hos. 

  Já noite, nave­gan­do com ru­mo oeste, dis­tin­gui dois faróis po­tentes na cos­ta in­gle­sa, um dos quais assi­nala­va o cabo Lands End, que os anti­gos supun­ham ser o fi­nal da ter­ra. De man­hã chegou um corte­jo de gaiv­otas, que ale­gre­mente se re­solver­am a acom­pan­har-​me, em lu­ta com o ven­to, que so­pra­va ri­jo. 

  Após dois dias de nave­gação em mar ag­ita­do; en­con­trei al­guns ar­rastões france­ses, que es­tavam, muito ao largo, so­bre o ban­co Grande Sole, a pescar en­tre bóias com ban­deiro­las, não ob­stante a va­ga grossa que fazia. Além das gaiv­otas e do ven­to, tam­bém pas­sei a ser acom­pan­hado por um ban­do de ton­in­has, que pare­ci­am caprichar na elegân­cia dos saltos fo­ra de água. 

  A trav­es­sia do Atlân­ti­co re­al­iza­va-​se em condições pouco agradáveis, quase sem­pre sob um céu neb­uloso e triste, que mais en­som­bra­va o mar e as suas grossas va­gas, as quais o navio a cus­to ia gal­gan­do nu­ma in­ter­mináv­el mono­to­nia de subidas e de­sci­das, que lhe fiz­er­am re­duzir a mar­cha até à mé­dia de qua­tro nós. 

  Nevoeiro. Várias vezes o cas­co ba­teu com es­tron­do con­tra as on­das al­terosas, tu­do es­treme­cen­do tet­ri­ca­mente, ou er­am elas que ir­rompiam pela amu­ra­da de bom­bor­do, var­ren­do o con­vés, es­trepi­tosas, na sua fúria. O bal­anço de para­fu­so, que en­tão já se sen­tia a bor­do, obri­ga­va os que es­tavam livres a ficar pe­los be­lich­es, en­tregues aos seus próprios pen­sa­men­tos, na im­pos­si­bil­idade de os ex­pandir, ol­han­do o mar, en­quan­to out­ros se refu­giavam, apáti­cos, no sa­lote, as­sim se pas­san­do o tem­po ou se en­ganan­do a tris­teza dessa vi­agem tor­men­tosa.

  Du­rante a noite hou­ve out­ra vez nebli­na e o mar con­tin­uou ag­ita­do, obri­gan­do o navio a bal­ançar com força e aos es­tremeções. Na­da se dis­tin­guia para além do mas­tro de vante e só se es­cu­ta­va o som grave do api­to do navio. Con­tu­do, foi uma sur­pre­sa ater­rado­ra o ter-​se avis­ta­do a man­cha som­bria de um grande car­gueiro, que nave­ga­va de en­con­tro ao nos­so bar­co, por en­tre a névoa, do qual a tem­po se desvi