­ou, evi­tan­do um abal­roa­men­to cu­jas con­se­quên­cias, tu­do o lev­ava a cr­er, ser-​nos-​iam bem fu­nes­tas.

  O ven­to não par­ava nem de dia nem de noite e es­ta­va ca­da vez mais frio. En­fim, após oito dias de vi­agem ter­riv­el­mente maçado­ra, aman­heceu cal­mo e o céu tornou-​se límpi­do. O mar já era chão e tremeluzia à luz clara do Sol. No pos­to de ra­diotelegrafia pud­er­am cap­tar a emis­são ra­diofóni­ca de um lu­gre e des­de en­tão não mais per­di o con­tac­to com os navios por­tugue­ses que pescav­am o ba­cal­hau no out­ro la­do do Atlân­ti­co, até chegar-​lhe à vista e ne­les pas­sar a ter um con­vívio tão rude co­mo aci­den­ta­do. 

  O silên­cio do mar

  O reino ob­scuro e si­len­cioso das águas já não pode es­con­der to­dos os seus seg­re­dos. Berço da vi­da, à qual con­feriu as próprias condições em que ela ain­da ho­je pode ex­is­tir e per­pet­uar-​se (não ob­stante já ter em grande parte saí­do do seu prim­iti­vo meio orig­inal, fixan­do-​se na ter­ra e no ar), é ain­da a água, con­tu­do, que encer­ra o princí­pio de to­das as ex­istên­cias, pois que não há vivente que se­ja ca­paz de sub­si­stir sem que as célu­las do seu cor­po se não em­be­bam em enormes per­cent­agens líquidas. Por is­so to­dos com­preen­de­mos a atracção da água, quan­do con­tem­plam­os o seu in­can­sáv­el movi­men­to jun­to às pra­ias e roche­dos dos litorais e lhe sen­ti­mos o cheiro pen­etrante e a ou­vi­mos na sin­fo­nia dos seus mur­múrios. 

  Mar. Água sal­ga­da ala­gan­do a maior parte da su­per­fí­cie da Ter­ra, isolan­do os seus con­ti­nentes, for­man­do as suas il­has, enchen­do os grandes abis­mos e nive­lando sub-​rep­ti­ci­amente os leitos ro­chosos que ele in­va­diu e vai tapan­do de lo­do e de de­tri­tos. 

  Ape­nas nas ca­madas su­per­fi­ci­ais o mar ap­re­sen­ta ténues gradações, até se abrir no azul ou no verde, ou nas com­bi­nações mais cap­ciosas, con­soante a at­mos­fera que o en­volve, os fun­dos e a própria vi­da das águas. Aí se começam a sen­tir as primeiras in­fluên­cias do calor so­lar e, con­jun­ta­mente com a atracção do Sol e da Lua, oca­sio­nan­do-​lhe as marés, com to­das as suas con­se­quên­cias, as molécu­las líquidas vão-​se mod­if­ican­do no vol­ume e nas suas posições rel­ati­vas, mo­ti­van­do os grandes movi­men­tos de fugi­da das águas, es­tran­hos rios que se dis­tinguem no seio dos próprios oceanos e a que chamamos as cor­rentes marí­ti­mas. Out­ras cor­rentes se for­mam nas águas de­vi­do à di­recção e força dos ven­tos, às de­siguais den­si­dades das difer­entes ca­madas líquidas, à fusão dos ge­los e à ro­tação da ter­ra, cor­rentes es­sas de grande im­portân­cia nas lat­itudes onde en­tão nave­ga­va, pois são elas que fazem ati­rar para as costas os navios que in­cau­ta­mente se aprox­imam. 

  Tem­pes­tades. Naufrá­gios. Aves a es­voaçar lá no al­to, ou, poisadas de cansaço, a em­brul­har-​se na crista das va­gas até serem en­gol­idas pelas águas ou por cer­tos peix­es que en­tão mais se atrevem a vir à su­per­fí­cie. O céu fi­ca azul-​es­curo e de­pois vai car­regan­do até ao ne­grume, que ape­nas relâm­pa­gos ilu­mi­nam de jac­to, co­mo se qual­quer coisa ex­plodisse ao longe. Tu­do es­tremece com o es­tampi­do bru­tal, que parece que­brar o próprio fir­ma­men­to, en­quan­to as águas, que se con­traíram por um mo­men­to, mais e mais se agi­tam até saltar em jac­tos e em tur­bil­hões. Lev­an­tam-​se es­pumas mul­ti­cores, quais far­ra­pos de ren­da que o ven­to ar­ran­cou ao mar, rugi­dor e ter­rív­el. Er­guem-​se mon­tan­has de água, que eu nem sei co­mo al­guns navios po­dem gal­gar. Abrem-​se abis­mos que tu­do pare­cem en­goli