sinos do navio-​hos­pi­tal e do lu­gre, que, em­bo­ra fos­sem ape­nas avi­so de nevoeiro, mais me pare­ci­am to­ques sin­istros de fi­na­dos.

  Pela man­hã, vier­am num dóri três pescadores doentes. En­quan­to aguar­davam a con­sul­ta médi­ca fui com eles relem­bran­do a man­hã ra­diosa em que as­sistíramos à mis­sa cam­pal, em Belém, e de­pois à pro­cis­são e bênção da fro­ta, to­da de bran­co, em­ban­deira­da e al­in­ha­da a remi­rar-​se na grande cruz de Cristo que servia de al­tar-​mor. 

  De­pois, nove navios a mo­tor e quarenta e um grandes veleiros (na sua quase to­tal­idade dispon­do de mo­tores aux­il­iares), foram largan­do do Tejo, porém, com tais in­ter­va­los que os primeiros chega­dos aos ban­cos e os que ain­da es­tavam a de­ban­dar de Por­tu­gal se es­ten­di­am através do mar-​oceano, co­mo num corte­jo de muitas ve­las en­fu­nadas pe­lo ven­to.

  Tiran­do os seis grandes ar­rastões, des­de Fevereiro a pescar sem des­can­so, na ân­sia de re­alizarem duas safras at­es­tadas, nes­sa cam­pan­ha de 1946, a vi­da dos bar­cos de pesca à lin­ha era regi­da pela mes­ma dureza e mono­to­nia, fos­sem veleiros ou navios só a mo­tor. 

  Os pescadores es­col­her­am o re­spec­ti­vo par­ceiro de be­liche, ar­ru­maram a tral­ha que havi­am em­bar­ca­do -os in­sep­aráveis bar­ris e os gar­rafões de vin­ho, os baús de fol­ha, as caixas de cor­tiça pin­ta­da dos farnéis, roupas, amule­tos, recor­dações fa­mil­iares, tu­do o que lh­es resta­va de um mun­do que para trás fi­ca­va, dis­tante. 

  Mas não tra­bal­haram nos primeiros dias de vi­agem. Só de­pois de já próx­imos dos ban­cos os capitães lh­es de­ram es­trafego, is­to é: dis­tribuíram-​lh­es anzóis, lin­has de mão e de fun­do, chum­badas, ro­dos, cel­has e em breve começari­am a en­tre­gar-​lh­es o is­co, para lo­go ini­cia­rem a mais du­ra de to­das as safras de pesca. 

  Tiraram ri­fas para o sorteio dos dóris, sem que nelas en­trassem os números 11 e 13, que con­sid­er­am fatídi­cos. E en­tão foram dias amoráveis a cuidar dess­es bar­quitos in­di­vid­uais, pon­do-​lh­es re­quintes de arte e de car­in­ho pre­gos, tábuas, ro­das de so­la, to­letes, ban­co para a bús­so­la, an­teparas, mas­tro, vela col­ori­da, tal­ha­da e ar­ma­da se­gun­do a con­vicção náu­ti­ca de ca­da um e a tradição da sua ter­ra de mar­in­heiros. De­pois, ex­pres­san­do o seu par­tic­ular­is­mo, vá de en­feitar os próprios dóris com nomes ou le­tras só para eles sig­ni­fica­ti­vas -sin­ge­las im­agens de san­tos fa­mil­iares ou ape­nas fig­uras ca­balís­ti­cas, en­fim, um sim­bolis­mo que muito os con­for­ta, mais tarde, ao largarem para o mar nes­sa no­va e pe­que­na casa de meia dúzia de tábuas, quan­tas vezes o caixão dos menos afor­tu­na­dos. 

  A vi­da a bor­do começa­va muito ce­do, quase sem­pre ain­da de noite (qua­tro ou cin­co ho­ras da madru­ga­da) e os pescadores, que dormi­am dois a dois e vesti­dos, por vezes em acan­hados be­lich­es, er­am des­per­ta­dos pela voz grave do vi­gia que lh­es lança­va um «Lou­va­do se­ja Nos­so Sen­hor Je­sus Cristo, para sem­pre se­ja lou­va­do, são já tan­tas da man­hã» 

  Aprontavam-​se com ligeireza, co­mi­am à pres­sa à mesa do ran­cho onde dormi­ram e lo­go começavam a saltar para os dóris, que de­stra­mente ar­ri­avam ao mar, de­pois de se ben­zerem. Afas­tavam-​se do navio-​mãe e es­pal­havam-​se, à vela ou a re­mos, até onde lh­es pare­cesse mel­hor para fun­dear e ini­ciar sem des­can­so o vaivém de lin­has abaixo e lin­has aci­ma, primeiro fazen­do-​as cor­rer pe­lo fun­do do mar e fixan­do-​as en­tre duas pe­que­nas bóias, pre­sos a elas muitos e muitos anzóis, que pre­vi­amente is­caram com a maior perí­cia, ho