­ras de­pois içan­do es­sas lin­has penosa­mente, pois vêm quase sem­pre car­regadas de ba­cal­haus. No en­tretem­po des­ta op­er­ação com as lin­has de fun­do, os pescadores não param, vis­to terem pres­sa de encher os dóris, se pos­sív­el duas ou mais vezes, e, tam­bém, porque não querem en­rege­lar na in­acção. De pé, vão en­tre­tan­to o tem­po de es­pera, fazen­do br­us­cos movi­men­tos dos braços no vaivém das za­ga­ias e das lin­has de mão, pesca que muitas vezes lh­es dá apre­ciáveis re­sul­ta­dos e era a úni­ca que se prat­ica­va out­ro­ra. 

  Sem­pre de pé, no fun­do do dóri, o pescador, si­len­cioso e tac­iturno, ol­ha a corti­na de bru­ma que se lev­an­ta ao en­tarde­cer e a breve tre­cho o en­volve e quase su­fo­ca. Quem sabe se não lhe ocorre ao pen­sa­men­to a tris­teza de um per­calço que o leve ou in­ca­pacite, e por is­so acel­era a recol­ha das lin­has e se prepara para mais de­pres­sa re­spon­der ã chama­da do lu­gre. Quan­do rompe a nebli­na, o capitão, de vi­gia a bor­do, não le­va muito que não comece a badalar o sino ou a tres­pas­sar o ar vis­coso com os lamen­tos en­er­vantes da sereia, em ape­los su­ces­sivos. Se uns vêm de­pres­sa, out­ros, con­tu­do, ain­da fi­cam ao longe, a aguardar, im­passíveis, que mais e mais peix­es se pren­dam nas lin­has, e só de­pois de no­vas e in­sis­tentes chamadas do navio-​mãe con­sen­tem em lev­an­tar os apar­el­hos de fun­do. 

  À me­di­da em que a lon­ga en­fi­ada de peix­es lh­es vão chegan­do às mãos gre­tadas do frio e en­sanguen­tadas das pi­cadas dos anzóis, de­sem­bucham-​nos das lin­has, ator­men­tam-​nos com pan­cadas vig­orosas, por vezes san­gram-​nos ou deix­am-​nos a es­tre­buchar na amál­ga­ma do bote, até os traz­er jun­to à bor­da do lu­gre, para onde os ati­ram febril­mente, es­peta­dos em lon­gas forquil­has mane­jadas em precário equi­líbrio. 

  Mas nem sem­pre o mar e o ven­to se man­têm fa­voráveis ao re­gres­so, pre­cisa­mente quan­do os braços já se negam a re­mar. Se, im­po­tentes, não con­seguem vencer as forças bru­tas da na­tureza, acon­tece que po­dem ficar ho­ras in­fini­tas na angús­tia e no pa­vor de não chegar. Foi es­sa, al­iás, a sen­sação que uma das vezes sen­ti nas min­has an­danças por vários lu­gres, não ob­stante a con­fi­ança que me in­spi­ra­va a cal­ma res­ig­nação e o apego à lu­ta do va­lente re­mador, que me trans­porta­va por en­tre mon­tan­has de água. A to­do o mo­men­to pare­cia que uma on­da maior ul­tra­pas­sa­va o frágil es­quife onde me agar­ra­va, con­tan­do por sécu­los os min­utos que nor­mal­mente levaria a per­cor­rer a cur­ta dis­tân­cia até ao «Gil Eanes». Se con­sti­tu­iam, para mim, dois prob­le­mas o en­trar para os lu­gres, es­peran­do o mo­men­to pre­ciso em que o dóri, que me trans­porta­va, se el­evasse nu­ma on­da maior até à amu­ra­da do navio, a que me agar­ra­va penosa­mente, es­cor­re­gan­do nos limos e na vis­cosi­dade, descain­do  com os seus bal­anços lat­erais, por vezes mer­gul­han­do nas águas frias e subindo co­mo num bal­ancé, ou o sair, no re­gres­so, quase pu­lan­do, à sorte, para ficar acacha­pa­do can­hes­tra­mente no dóri, sem­pre aos saltos so­bre as va­gas, o pi­or foi quan­do de um destes me pen­durei na os­cilante es­ca­da de que­bra-​costas do navio-​apoio e nela fiquei, tol­hi­do de movi­men­tos, pe­los bal­anços que en­tão da­va, en­quan­to a água gela­da uma vez mais me ban­ha­va num lon­go de­safio. 

  To­davia, quan­to não apre­ci­ava as vis­itas aos lu­gres e ne­les com­par­tic­ipa­va de um pouco dessa vi­da rude mas cu­riosís­si­ma das trip­ulações e dos pescadores. À tarde, via-​os chegar nas suas frágeis em­bar­cações, amar­rá-​las e içá-