las, nu­ma al­gazarra, cor­rerem para o ran­cho, onde uma abun­dante refeição os aguar­da­va, mas que eles en­go­liam à pres­sa vis­to os es­per­ar um não menos fati­gante tra­bal­ho, geral­mente con­heci­do pela es­cala, Di­vi­di­dos por es­pe­cial­iza­ções, es­pal­havam-​se os pescadores pe­lo con­vés e porão, Os troteiros, re­ti­ravam os peix­es dos quetes, ar­ma­dos jun­to às amu­radas, gol­peavam-​nos ao lon­go do ven­tre e da cabeça e ati­ravam-​nos para as mesas, onde os parte-​cabeças os ajeitavam para as sep­arar com uma pan­ca­da se­ca. De­pois das vísceras ar­ran­cadas e es­col­hi­dos os fí­ga­dos, seguia-​se a tare­fa do es­cal­ador, no corte da porção an­te­ri­or da es­pin­ha, op­er­ação que lo­go da­va a for­ma es­pal­ma­da que to­dos con­hecem. De grandes cel­has com água cor­rente, moços sono­len­tos com­ple­tavam a lavagem, ag­itan­do os peix­es, que em­purravam com os gar­fos de madeira, de­pois es­cor­ri­am-​nos e ati­ravam-​nos por lon­gas man­gas de lona até ao in­te­ri­or do porão. Aí, de joel­hos, moven­do-​se com di­fi­cul­dade, os sal­gadores es­fal­favam-​se para acamá-​los com reg­ular sime­tria e para enchê-​los de sal mar­in­ho, em su­ces­si­vas ca­madas de peixe e mais peixe até o porão se at­es­tar. Se não fos­se esse sal, não se­ria pos­sív­el a con­ser­vação do ba­cal­hau du­rante os cin­co meses de per­manên­cia nos pesqueiros, nem o tem­po ul­te­ri­or de es­pera nos por­tos de des­ti­no, du­rante a secagem. 

  Às vezes tardís­si­mo, con­soante a abundân­cia do peixe, acaba­va a es­cala, ar­ru­ma­va-​se o ma­te­ri­al e baldea­va-​se o con­vés, até se ou­vir as pan­cadas do sino e a voz do capitão no seu «Lou­va­do se­ja Deus Nos­so Sen­hor Je­sus Cristo. Por ho­je acabou. Aman­hã Deus dará mais». E to­dos se en­cam­in­havam para o ran­cho onde, de tão cansa­dos e sono­len­tos, mal sa­bo­re­avam a afama­da cho­ra, uma sopa de caras de ba­cal­hau, condi­men­ta­da e sub­stan­cial e de que tan­tas saudades já ten­ho. Em breve, um silên­cio pe­sa­do se in­sta­la­va por umas es­cas­sas ho­ras, em to­da a fro­ta, sig­nif­ican­do o jus­to re­pouso de quem pe­nou um dia in­teiro. 

  En­tre­tan­to, o «Gil Eanes», lá prosseguia nos seus tra­bal­hos de as­sistên­cia aos bar­cos. Era a vez do «Ana Maria» e do «Pas­sos de Brandão», am­bos a balouçar das popas os car­ac­terís­ti­cos sacos de lona, com as roupas dos pescadores, na lavagem gra­tui­ta da água sal­ga­da e que, ao longe, me pare­ci­am en­for­ca­dos. No Plati­er do Grande Ban­co havia va­ga mu­to grossa, mas que não im­pediu a as­sistên­cia ao "Maria Fred­eri­co». No out­ro dia, em com­pen­sação, es­ta­va cal­maria ab­so­lu­ta e as­sim mel­hor se as­si­sti­ram o «Trom­be­tas», o «Leopold­ina» e o «Ana Primeiro». Mas, o cair da tarde levan­tou br­us­ca­mente a brisa e o mar lo­go re­spon­deu com uma on­du­lação cava­da, pre­cisa­mente quan­do eu, de­pois de já ter vis­ita­do o «An­tónio Rib­au», o «Júlia Quar­to», o «Lou­sa­do», o «In­fante de Sagres» e o «In­ácio Cun­ha», re­gres­sa­va à pres­sa, do «Rio Li­ma». Uma vez mais, por­tan­to, sofri as peripé­cias das atra­cações e abor­da­gens amar­fan­hantes, mas dan­do-​me, por sua vez, a ve­ra im­agem da safra nos mares dis­tantes e traiçoeiros, onde muitos bar­quitos cor­ri­am à pres­sa para jun­to dos navios-​mães e, de­pois, uma orgul­hosa fro­ta ba­cal­hoeira de lu­gres e navios a mo­tor, a maior do mun­do, su­por­ta­va os fortes im­pul­sos das on­das e do ven­to, que lh­es não con­sen­tia o en­fu­nar de uma só vela. 

  Pesca im­pre­vista 

  A tarde decor­ria ser­ena­mente, so­bre o Grande Ban­co. O mar es­ta­va cal­mo e ape­nas a névoa,