 dis­tante, im­pe­dia que a luz do Sol re­ver­berasse co­mo nas pra­ias por­tugue­sas. Dir-​se-​ia um mun­do longín­quo, onde o silên­cio reinasse na am­plidão do azul e do cinzen­to e onde os pescadores, co­mo fig­uras de len­da, se iam moven­do, suave­mente, por so­bre as águas cor de es­tanho do oceano. 

  Era as­sim que as sil­hue­tas se desta­cavam, es­curas, ante a bran­cu­ra da névoa que se es­ba­tia. Re­mavam com lentidão, cansa­dos da pesca far­ta desse dia. Out­ros, de pé so­bre as frágeis tábuas dos dóris, movi­am os braços no rit­mo br­us­co da pesca com as za­ga­ias. Acon­te­cia que o ba­cal­hau, gu­loso e vo­raz porque a fome o aper­ta­va, muito se ilu­dia ante a for­ma e o bril­ho do apar­el­ho, at­acan­do-​o em subi­da ver­tig­inosa. Quase sem­pre fi­ca­va pre­so, nas posições mais in­verosímeis, es­peta­do num dos dois gan­chos que for­mam a cau­da daque­le en­gen­ho de cap­tura. Tam­bém as­sim se pesca­va de bor­do do «Gil Eanes», gozan­do-​se as ho­ras va­gas e o bran­do calor de uma tarde de São Pe­dro, nos ban­cos da Ter­ra No­va. 

  Na amu­ra­da da ré, havia ex­pec­ta­ti­va, pois que, à transparên­cia das águas, vi­ra-​se o vul­to som­brio de um grande tubarão. As­sim já não valia es­fal­far os braços a içar e a largar za­ga­ias, pois que os ba­cal­haus an­dari­am fugi­dos, apa­vo­ra­dos com a pre­sença de tal in­imi­go. Só mais tarde se voltou a ten­tar a pesca, em­bo­ra com pouco êx­ito. 

  Semel­hante con­traste com os pescadores dos dóris, mais ao largo, fazia an­tev­er o re­gres­so da fera, que, al­iás, não se fez es­per­ar. Com efeito, acabara um dos trip­ulantes de za­ga­iar um peixe, quan­do um grande vul­to se de­sen­hou na pru­ma­da do navio, sob o azul trans­par­ente da água. Com rapi­dez in­stin­ti­va, pux­ava o im­pro­visa­do pescador pe­lo fio da za­ga­ia, por es­píri­to de com­petição, que o in­duzia a de­fend­er o pro­du­to da sua pesca ante a glu­ton­ice do vo­raz perseguidor. Era uma ale­gre cor­ri­da. Porém, o tubarão foi mais veloz, em breve es­can­car­an­do a enorme bo­car­ra, onde várias fi­adas de dentes, cur­tos e pon­teagu­dos, tornar­iam im­pos­sív­el qual­quer velei­dade de fu­ga. Foi as­sim que, num ápice, de­sa­pare­ceu o peixe e a própria za­ga­ia, cu­jos dois gan­chos aguça­dos iri­am, con­tu­do, pren­der-​se nas en­tran­has do in­trometi­do.

  Tu­do is­to se pas­sou com rapi­dez e foi cu­riosa­mente ob­ser­va­do da amu­ra­da do navio, mo­ti­van­do a an­imação dos as­sis­tentes, en­tre os quais a min­ha pes­soa, para quem tal es­pec­tácu­lo era in­édi­to. Já se gri­ta­va por to­da a parte a in­ter­es­sante notí­cia e de to­dos os la­dos se cor­ria ao chama­men­to. In­stin­ti­va­mente começou-​se a puxar pe­lo fio que pren­dia o bi­cho e daí veio o de­se­jo de, as­sim mes­mo, o pescar. Mas, tam­bém, lo­go se viu ser im­pos­sív­el que o tubarão não que­brasse o fio, de­vi­do ao seu grande pe­so. Por is­so o foram ali­vian­do, en­quan­to a fera cor­ria para to­dos os la­dos, con­torcendo-​se com dores e san­gran­do das en­tran­has, na ân­sia bru­tal de se lib­er­tar de tão in­có­mo­da prisão.

  Lutou du­rante muito tem­po, porém, aca­ban­do por se cansar e de es­vair, lenta­mente é cer­to, con­tu­do tão in­flex­ivel­mente quan­to o sangue não deix­ava de se es­par­gir em fi­no jac­to, que traçan­do um cam­in­ho sin­uoso nas águas antes trans­par­entes, e que, a pouco e pouco, es­cure­ci­am.

  O es­pec­tácu­lo, prim­iti­va­mente anun­ci­ado com foros de sen­sa­cional no decor­rer de uma as­sistên­cia tra­bal­hosa mas quase sem beleza e var­iedade, ameaça­va cair na mono­to­nia. Ape­nas, de vez em quan­do, o tubarão sara­ban­da­va jun­to à su­per­fí­