cie, voltan­do-​se co­mo uma lâmi­na de aço ao ser tem­per­ada. Es­padana­va, en­tão, ar­ro­gantes cachões, para de no­vo mer­gul­har e cor­rer, num vaivém, para baixo, para cima e para os la­dos, en­quan­to a prisão, ago­ra ca­da vez mais cur­ta, lho ia per­mitin­do. 

  Já se vi­am dis­tin­ta­mente to­dos os por­menores do seu grande cor­po es­curo, donde saíam re­flex­os, que a água me trans­mi­tia em lam­pe­jos cor de es­mer­al­da. Ou en­tão, era o bran­co es­pec­tral do seu ven­tre bo­ju­do, onde a bo­car­ra con­tin­ua­va aber­ta e ter­rív­el. O in­tru­so já da­va man­ifestos sinais de der­ro­ta, ven­ci­do pela dor, pe­lo cansaço e pela san­gria in­in­ter­rup­ta, que lenta­mente o mata­va. Por is­so, to­dos, à uma, começaram o ver­dadeiro tra­bal­ho do iça­men­to. 

  Uma out­ra za­ga­ia foi-​lhe ati­ra­da pela bo­ca a baixo, para re­forço da primeira. Mas, es­ta, con­seguiu ele safá-​la, trin­can­do-​a com fúria até a sep­arar do fio. De­pois dis­so, começou no­va e der­radeira cor­re­ria. Jul­gan­do-​se de no­vo no mar livre, es­padanou, ga­stan­do as pou­cas forças que lhe restavam, num úl­ti­mo im­pul­so de lib­er­tação. Mas, dessa vez, o que con­seguiu foi que o próprio es­tô­ma­go lhe saísse pela bo­ca fo­ra, es­ti­ca­do pela za­ga­ia e pe­lo fio a que to­dos nos agar­rá­va­mos com doen­tio apego. 

  Co­mo o sangue es­cor­resse mais e co­mo as forças o traíssem no mo­men­to para ele de­ci­si­vo, não re­sul­tou es­ta úl­ti­ma ten­ta­ti­va de afas­ta­men­to. Era um con­de­na­do, não ob­stante ain­da perigoso para quem dele se aprox­imasse. Pairou en­tão, já prostra­do, em­bo­ra sem­pre ameaçador, a cau­da chicote­an­do sem nexo, os ol­hos fi­tos no azul do mar donde o fur­tavam ir­re­me­di­avel­mente. 

  Vier­am gan­chos, cor­das e es­petos, tu­do o que servisse para pren­der um bi­cho tão cor­pu­len­to. Chovi­am alvit­res des­en­con­tra­dos no meio da al­gazarra dos as­sis­tentes. Reina­va uma ale­gria bár­bara ao ver a emo­cio­nante lu­ta já prestes do seu fim. 

  Foi en­tão que se aprox­imaram dois bar­quitos com pescadores nos­sos com­pa­tri­otas, a quem se pediu aju­da. Os seus ol­hares er­am cal­mos e os seus gestos in­difer­entes. Mas não hes­itaram, mes­mo ante o ev­idente risco de se voltarem os seus frágeis dóris, ante um im­pul­so mais vi­olen­to do pri­sioneiro. 

  Re­maram para o lo­cal da lu­ta e en­ta­laram o tubarão en­tre os seus botes, nu­ma con­fusão de es­pumas e de re­de­moin­hos. Um dos pescadores, mais idoso, não ati­na­va com o que faz­er, pare­cen­do al­hea­do de tu­do e à mer­cê da sorte a que in­difer­ente­mente se lançara. Mas o out­ro pescador, ra­paz de­ci­di­do e forte, en­trou no com­bate com en­tu­si­as­mo e cor­agem, que talvez lhe não fizessem sus­peitar da im­prudên­cia em que se metia. 

  Aprox­imou-​se o mais que pôde, sem­pre de re­mo er­gui­do, para, com este, vi­brar uma pan­ca­da no gor­do cachaço do tubarão, que a reper­cu­tiu num som ca­vo. Prati­ca­mente, não fo­ra grande o ator­doa­men­to e ape­nas as águas voltaram a en­trar em re­boliço. Foi en­tão que o pescador, talvez ago­ra medin­do o peri­go mas con­fi­ado na sua au­dá­cia, quis atr­ev­er-​se a pas­sar um laço na cau­da do tubarão, para que, de bor­do, ri içassem por dois la­dos. 

  Fez-​se breve silên­cio, pois to­dos ficaram sus­pen­sos ante tal desígnio. Sem hes­itar, o nos­so homem aprox­imou-​se do enorme selá­cio, que en­tão jazia imóv­el e de ol­har semivítreo. De­pois de muito se de­bruçar so­bre o seu frágil dóri, con­seguiu deitar a mão à du­ra cau­da do an­imal, que, sentin­do-​se pre­so por out­ro la­do, a sacud­iu ter­riv­el­mente, co­mo se fos­se um cute­lo, tu­do em re­