r, tão br­us­ca­mente co­mo em sorve­doiros. Há on­das que se chocam em saraivadas de es­pumas e de ruí­dos. É o mar a con­torcer-​se na dança alu­ci­na­da das fúrias. As­sim re­sponde o oceano ao sil­var do ven­to e as­sim é ele be­lo e é cru­el na sua força bru­tal de ir­re­spon­sáv­el. 

  Mas es­ta lu­ta ci­clópi­ca, por mais que dure, aca­ba sem­pre nos grandes mo­men­tos de acalmia e, en­tão, o mar é bom e ain­da é mais be­lo nas suas cores de doce suavi­dade, qual toal­ha de madrepéro­la dan­do re­flex­os de oiro e de pra­ta sob o ave­lu­da­do do azul, es­bran­quiça­do ou plúm­beo quan­do à luz do dia, ou es­tran­hamente ilu­mi­na­do pela Lua, mas onde a vi­da in­te­ri­or, porém, para nós con­tin­ua tão ob­scu­ra que raro se deixa pressen­tir, sal­vo nal­guns mo­men­tos fugazes de lu­ta e de perseguição à su­per­fí­cie. 

  A água do mar é sal­ga­da e encer­ra vari­ados sais dis­solvi­dos, con­jun­ta­mente com miríades de cor­pos em sus­pen­são. Há areias, con­chas, de­tri­tos, cal­haus, lo­dos que se deslo­cam e de­pois vão fi­can­do em lo­cais vari­ados que o tem­po se en­car­rega de encher e de faz­er subir. São muitos, são dis­per­sos e nem sem­pre da mes­ma na­tureza e a eles se chamam os ban­cos sub­mari­nos. São aí os lo­cais predilec­tos para os peix­es se namorarem, ou para se com­erem uns aos out­ros en­quan­to os home­ns os não procu­ram. 

  Nos ban­cos da Ter­ra No­va to­das as Pri­mav­eras há a in­vasão su­per­fi­cial das águas frias (que vier­am do norte em lenta e disc­re­ta cor­rente) por out­ras águas mais azuis e mais quentes da Cor­rente do Gol­fo, en­tão en­grossa­da e mais ex­pandi­da des­de as regiões trop­icais. Os peix­es que são mais sen­síveis a es­tas mu­danças de tem­per­atu­ra e de salin­idade das águas sen­tem-​se mal e têm que se pre­caver. Por is­so nadam pe­los fun­dos. Mas out­ros há que deslizam mais aci­ma, en­quan­to aque­les os não as­saltam nu­ma ráp­ida in­vesti­da as­cen­sion­al. 

  Nes­sa época, chegam car­dumes de mo­lus­cos e de peix­es menores, que ape­nas se al­imen­tam de plan­tas minús­cu­las ou de an­imais mais pe­quenos, para is­so ba­stan­do pairar, de ol­har es­bugal­ha­do, a abrir e a fechar as bo­cas para a água en­trar e de­pois sair deixan­do-​lh­es os al­imen­tos. 

  Out­ras for­mas maiores apare­cem ao longe, a mostrar as es­curas sil­hue­tas ou o bril­ho metáli­co das es­ca­mas. O mar é pouco trans­par­ente e por is­so os peix­es mal se vêem e ape­nas se pressen­tem pe­lo gos­to das águas, pe­los sons ou por mis­te­riosas ra­di­ações. Mas há con­fusão nos car­dumes, as­salto bru­tal dos mais fortes, em breve segui­do de dis­per­sões quase sem­pre des­or­de­nadas, para de­pois, atraí­dos por es­tran­ha força, os peix­es se voltarem a re­unir noutro pon­to, em­bo­ra dimin­uí­dos pela caça­da que sofr­eram em silên­cio. 

  E o dra­ma, sem­pre igual, repete-​se in­vari­avel­mente. A lu­ta pela ex­istên­cia con­tin­ua com sorte vária e há es­pé­cies que pros­per­am e out­ras há que de­cli­nam, tan­tas vezes pela ex­clu­si­va cu­pi­dez dos home­ns. 

  Nas be­las flo­restas adorme­ci­das, que não raro são o im­po­nente re­co­bri­men­to veg­etal do fun­do do mar, tam­bém surgem os ine­bri­antes es­pec­tácu­los das coló­nias pet­ri­fi­cadas de corais, for­man­do labir­in­tos, caste­los de quimera, mon­tan­has capri­chosas, quer nas for­mas quer nas cores, graças aos efeitos da luz in­di­rec­ta que as águas so­bre elas di­afanizam. 

  À noite, quem ande no mar pode ver es­tran­hos fenó­menos de fos­forescên­cia da água, pare­cen­do que ela traz ar­den­tia, de tan­to bril­har. São mul­ti­dões de seres vivos, pe­quenís­si­mos, a polu­lar na s