r­ra, o painho e o pom­balete, ou, fi­nal­mente, os is­cos con­ge­la­dos em Por­tu­gal, co­mo o choco, a po­tra, o cara­pau e a sardinha, tan­tos dess­es is­cos ain­da re­cu­per­ados no bu­cho do ba­cal­hau, cu­jas vísceras, in­clu­si­va­mente, não des­den­ha co­mo man­jar mor­tal. 

  Con­tu­do, não ob­stante a sua vo­raci­dade, o ba­cal­hau é um peixe dos mais es­túpi­dos e sem vig­or com­bat­ivo. A vo­raci­dade, a es­tupi­dez e a co­var­dia são, pre­cisa­mente, os três mo­tivos que o lev­am a deixar-​se apri­sion­ar facil­mente e de qual­quer maneira, mais não opon­do do que uma dé­bil re­sistên­cia quan­do en­volvi­do nu­ma rede fixa ou de ar­ras­to, ou quan­do feri­do e ar­reban­hado por um sin­ge­lo an­zol. Por is­so a sua cap­tura é rel­ati­va­mente tão fá­cil e de­spre­ocu­pa­da quan­to as restantes op­er­ações com­ple­mentares ao con­jun­to das safras são ar­riscadas e difí­ceis. 

  Deve ser um fenó­meno raro a morte do ba­cal­hau por vel­hice. As­sim, quan­do ele não é suprim­ido à den­ta­da, ou por ráp­ida deg­lu­tição efec­tu­ada por peix­es maiores ou mais atre­vi­dos (es­pe­cial­mente se ele es­tiv­er doente ou en­fraque­ci­do pe­lo par­asitismo), vem a mor­rer por as­fix­ia (tal co­mo a dos home­ns quan­do se afogam), se, br­us­ca­mente sub­traí­do ao seu meio nat­ural, en­tra em con­tac­to com o ar at­mos­féri­co, cu­jo ox­igénio livre ele não es­tá ha­bit­ua­do a fixar, pe­lo que fi­ca a abrir de­scom­pas­sada­mente a bo­ca, o ol­har vítreo, san­gran­do das feri­das deix­adas pe­lo bru­tal ar­ran­ca­men­to do an­zol ou da za­ga­ia que o traíram, con­torcendo-​se no monte de cadáveres vis­cosos ou de peix­es co­mo ele ag­onizantes, com que se vão enchen­do febril­mente os dóris, onde home­ns de as­pec­to bár­baro se vão at­ul­han­do de ba­cal­haus e de sangue. 

  Muitas ve­las no oceano 

  «Alô, alô, atenção. Chama­da ger­al a to­dos os lu­gres. Digam as posições onde se en­con­tram, os doentes que têm a bor­do e do que pre­cisam.» Foram es­sas as palavras mág­icas com que o co­man­dante Tavares de Almei­da ini­ciou a as­sistên­cia à fro­ta de 56 navios por­tugue­ses nos ban­cos de pesca do Atlân­ti­co noroeste, palavras que só por si con­fe­ri­am o alen­to de uma pre­sença ami­ga. E foi um falatório pe­ga­do o que o apar­el­ho de rá­dio nos trans­mi­tiu, quase sem parar, roufen­ho ou gri­tante con­forme o tim­bre das vozes e as pre­ocu­pações dos in­ter­locu­tores. 

  No con­vés já se não po­dia an­da, sem abafos, pois es­fri­ara quase subita­mente, sinal de que en­trá­va­mos no túnel, ou se­ja aqui­lo a que, noutra al­tura, ou­vi­ra chamar a mu­ral­ha fria dos ban­cos. 

  O mar pare­cia lama e do ar avança­va uma corti­na de névoa, dis­per­sa, em far­ra­pos, que bem de­pres­sa cer­rou o hor­izonte, onde um ne­grume sin­istro pare­cia apos­ta­do em nos tol­her o pas­so. Lo­go, por pre­caução, se pas­sou a nave­gar a meia força e o api­to de bor­do, a es­paços cur­tos, ia ron­can­do pe­sada­mente. As­sim se nave­gou ain­da mais um dia, até que no out­ro, à ho­ra do crepús­cu­lo, por en­tre cer­ração, se dis­tin­guiu a sil­hue­ta con­fusa de um lu­gre, a balouçar-​se, de­sen­gonça­do, ao sa­bor da brisa. Era o «Nep­tuno», com o qual, não sem emoção, se es­ta­bele­cia o primeiro con­tac­to di­rec­to. Quan­do o «Gil Eanes» de to­do se lhe aprox­imou, pararam as máquinas e en­tão, im­peli­do pela cor­rente e pe­lo ven­to, graças a uma há­bil manobra do capitão Ra­mal­heira, pôs-​se-​lhe na reves­sa, para co­bri-​lo de qual­quer sur­pre­sa. 

  Nes­sa primeira noite nos ban­cos adorme­ci a cus­to, pois en­tra­va-​me pe­los ou­vi­dos o marte­lar de­scom­pas­sa­do dos 