Title: Mulheres
Author: Raul Brandão
CreationDate: Tue Jul 14 12:02:00 BST 2009
ModificationDate: Sat Jul 10 14:20:00 GMT 1971
Genre: 
Description: 
  Mul­heres

  Raul Brandão

  Foz do Douro, Pal­heiros de Mi­ra e Mul­heres, aqui pub­li­ca­dos, foram ex­traí­dos do livro Os Pescadores.

  © 1998, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-48-1

  Lis­boa, Abril de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  MUL­HERES

  À memória 

  de meu avô 

  mor­to no mar 

  FOZ DO DOURO

  A cantareira 

  Abril – 1920

  A Foz é para mim a Corguin­ha, o Caste­lo e o Monte com o rio da Vi­la a atrav­es­sá-​lo, e a Rua da Cer­ca até ao Farol. O que es­tá para lá não ex­iste... Só me in­ter­es­sa a vi­la de pescadores e marí­ti­mos que cresceu nat­ural­mente co­mo um ser, adap­tan­do-​se pouco e pouco à vi­da do mar largo. E ain­da es­sa Foz se re­duz ca­da vez mais na min­ha al­ma a um cantin­ho -a meia dúzia de casas e de tipos que con­heci em pe­queno, e que reten­ho na memória com raízes ca­da vez mais fun­das na saudade, e mais vi­vas à me­di­da que me en­tran­ho na morte. O mun­do que não ex­iste é o meu ver­dadeiro mun­do.

  Es­ta vi­la adorme­ci­da es­ta­va a cem léguas do Por­to e da vi­da. Ali moravam al­guns pescadores e marí­ti­mos, o An­tónio Luís, a Poveira, as sen­ho­ras Fer­reiras, a D. Ana da Bot­ica e as Ca­pa­zo­rias. E, na Foz e na pen­sati­va Leça, uma gente de­sa­pare­ci­da com os navios de vela, os em­bar­cadiços que iam ao Brasil em lon­gas vi­agens de três meses. As casas, limpas co­mo o con­vés do navio, espre­itavam para o mar, umas por cima das out­ras. To­das tin­ham um grande ócu­lo de en­gonços, para ver o iate ou a bar­ca que par­tia, ou para procu­rar an­siosa­mente, lá no fun­do, o navio que trazia a bor­do o mari­do ou o fil­ho ausente, e um mas­tro no quin­tal para lh­es ace­nar pela der­radeira vez. Meu avô mater­no par­tiu um dia no seu lu­gre; min­ha avó Mar­gari­da es­per­ou-​o des­de os vinte anos até à morte, des­de os ca­be­los loiros que lhe chegavam aos pés até aos ca­be­los bran­cos com que foi para o tú­mu­lo. Quan­do os ro­los de es­puma re­brami­am no Cabe­de­lo, aper­tavam-​se os corações no peito, e à luz da can­deia rezavam ho­ras es­que­ci­das «pe­los que an­davam so­bre as águas do mar».

  Con­heço ain­da, tão bem co­mo on­tem, to­dos os can­tos da casa de min­ha avó: as es­cadas com um cabo de navio a servir de cor­rimão, a sala da frente com dois painéis es­curos nas pare­des, Je­sus cru­ci­fi­ca­do e S. João Bap­tista, e o estra­do onde ela e a tia Iria, to­do o dia sen­tadas, tra­bal­havam nas al­mo­fadas de bil­ros. A ren­da de bil­ros é uma in­dús­tria da beira-​mar, destas mul­heres loiras, de ol­hos azuis e ros­to com­pri­do -as da Foz, as de Leça e as de Vi­la do Conde -que pas­savam a vi­da à es­pera dos home­ns, en­quan­to as mãos ágeis iam tecen­do ter­nu­ra e es­puma do mar... Nes­ta sala abri­am-​se duas por­tas, uma para os quar­tos in­te­ri­ores e out­ra para o corre­dor onde os ra­pazes dormi­am num ar­mário com be­lich­es.

  Ao la­do da casa, que subia em so­cal­cos pe­lo monte, subia tam­bém uma es­ca­da de pe­dra em pata­mares até lá aci­ma. Do quin­tal, mais al­to que os tel­ha­dos, via-​se o mun­do. Era dali, saltan­do o muro, que eu par­tia para ex­cursões mar­avil­hosas, através do pin­heiral do La­je...

  Cos­tumes muito sim­ples, muito out­ros. Uma pesca­da cus­ta­va seis vin­téns, e min­ha avó gemia da cares­tia da vi­da, fa­lan­do com saudade «do tem­po do ar­roz de quinze». Tin­ham-​se cal­ado as marte­ladas nos es­taleiros de Mi­ra­ga­ia e do Ouro, onde os calafates, os fer­reiros e os carpin­teiros de macha­do er­guiam