 out­ro­ra, en­tre clarões de for­ja e cheiro a pin­ho descas­ca­do, as car­caças dos pal­habotes, das bar­cas e dos iates -mas eu ain­da con­heci al­guns tipos cu­riosos de capitães aposen­ta­dos, no amer­icano que se in­au­gu­rara e que lev­ava a gente ao Por­to nu­ma ho­ra, alu­mi­ado à noite por uma luz­in­ha de petróleo, e com re­forço de mu­las em Mas­sare­los. Ness­es car­ros an­da­va sem­pre a mes­ma meia dúzia de pes­soas para baixo e para cima, e o serviço era di­rigi­do com fe­ro­ci­dade por um ma­jor de pêra pin­ta­da com es­mero, que mantin­ha a dis­ci­plina nu­ma gaio­la do Ouro. Ora, en­tre as pes­soas que fazi­am comi­go a trav­es­sia, quan­do a An­in­has do Jeremias me lev­ava pela mão ao colé­gio, nun­ca mais es­que­cerei o capitão Bernardes, um do Car­val­ho que chegou a almi­rante, o tio Ben­to, o irascív­el capitão Sena, de quem se con­ta­va c0'!l ter­ror que fo­ra apan­hado no mar al­to por uma tro­voa­da -as faís­cas co­mo chu­va -, levan­do os porões car­rega­dos de pólvo­ra, o ale­gre capitão Serrab­ul­ho, casa­do com uma mul­her fan­tas­máti­ca: homem prodi­gioso, com uma grande bar­ri­ga sacu­di­da de risadas: -Aca­ba-​se aqui o mun­do com uma ceia de peixe! -e que fez an­dar num cor­ro­pio até à morte a Foz do Douro e a Baía, e en­tre to­dos eles, prin­ci­pal­mente, o capitão Ce­lesti­no, que, ten­do começa­do a vi­da co­mo pi­ra­ta, a acabou co­mo um san­to, cul­ti­van­do com es­mero um quin­tal de que ain­da ho­je me não lem­bro sem in­ve­ja. Fala­va pouco. Sor­ria sem­pre nu­ma sat­is­fação in­te­ri­or, com­ple­ta, per­fei­ta, com uma cara de pás­coas rosa­da e in­ocente, en­quadra­da pela bar­ba de pas­sa-​pi­ol­ho to­da bran­ca. A sua vi­da an­te­ri­or fo­ra mis­te­riosa e fer­oz. De uma vez, com sacos de cal de­spe­ja­dos no porão su­fo­cara uma re­vol­ta de pre­tos, que ia bus­car à cos­ta de África para vender no Brasil. Out­ras coisas pi­ores se diziam do capitão Ce­lesti­no... Mas o que eu sei com ex­ac­tidão a seu re­speito é que para al­porques de cravos não havia out­ro no mun­do. To­do o dia um fio de água es­cor­ren­do por con­du­tos in­visíveis, de que só ele sabia o seg­re­do, caía pingue-​que-​pingue nos ale­gretes ca­ia­dos de bran­co; to­do o dia o vel­ho corsário, com mãos del­icadas de mul­her, trata­va em­beve­ci­do as flo­res cul­ti­vadas co­mo fil­has. E acabou as­sim a vi­da mon­dan­do e po­dan­do, sem uma dúvi­da na con­sciên­cia tran­quila... 

  Maio – 1921

  Sonolên­cia doira­da com dois ou três acon­tec­imen­tos: as catra­ias que chegam da pesca, um grande pa­que­te que en­tra ma­jestosa­mente a bar­ra, os batéis que de­spe­jam na pra­ia os mon­tões de sardinha. Vêm os dias de névoa, quan­do o sino da igre­ja tange chaman­do os home­ns per­di­dos na cer­ração, o tem­po do sáv­el no rio, a pesca da lam­preia com um fog­aréu no bi­co do cabe­de­lo e, em Dezem­bro, a safra da sardinha. O sen­hor pi­lo­to-​mor pas­seia no cais com as mãos atrás das costas, ral­han­do aos vel­hos da Pen­são, e três marí­ti­mos con­ver­sam acolá naque­le ban­co de pe­dra, ao pé da torre dos pi­lo­tos, onde já meu avô se sen­ta­va.

  Um dia lança-​se a nos­sa catra­ia ao mar. Os calafates, com estopa em­brea­da, tomam-​lhe as jun­tas de pin­heiro por pin­tar. Al­guns home­ns dão-​lhe uma mão de piche e um de­sen­ha-​lhe nas tábuas do costa­do: Sen­ho­ra dos Nave­gantes. Chega da Póvoa o Manuel Ser­rão, homem de pou­cas falas e calças de lona bran­ca, e tal­ha-​lhe a vela es­ten­di­da na areia. Cor­ta-​se o mas­tro no pin­heiral do La­je. O sen­hor abade -to­ca o sino -as­perge-​a de água ben­ta e a com­pan­ha, com os bar­retes na mão e fatos de ver a Deus, es­pera o úl­ti­mo la­tim p