que reben­tou ao chegar à ter­ra. O peixe foge e to­dos aco­dem à catra­ia. Home­ns, mul­heres, vel­hos e ca­chopos saltam ao mar e em­purram-​se, caem na água, gri­tam, bara­fus­tam. O peixe é de quem mais apan­ha. Com as xalavaras ou à un­ha, metem os braços na água, num coro de gri­tos e risos, quan­do a on­da vem, desa­ba e os in­un­da en­tre a apu­pa­da, deixan­do-​os en­char­ca­dos e fe­lizes... 

  Anoitece. Volto-​me e quase gri­to de aflição. A Lua cheia e enorme, to­da bran­ca, surge so­bre o are­al aver­mel­ha­do, e já no mar começa a de­sen­ro­lar-​se o grande mis­tério da noite...

  Lá no fun­do fi­cou uma poça de água repre­sa­da, onde a luz se demo­ra. Para além -e sem­pre! sem­pre! -a grande toal­ha de es­puma, es­pra­ian­do-​se e su­min­do-​se na areia mol­ha­da mas es­cu­ra, onde os fios de lu­ar vão re­luzin­do. Névoa -quase na­da. O grande are­al in­de­ciso des­ma­ia. Ao sul o cabo es­curece... Am­plidão em­ba­ci­ada, fres­cu­ra e mar, onde apetece a gente mer­gul­har, en­tran­har-​se, mor­rer e dis­solver-​se... 

  O bar­co 

  Vai cair a tarde. O azul des­ma­ia so­bre o are­al doira­do. Mais pó es­bran­quiça­do lá ao fun­do, para o norte -névoa ou luz que nasce, não sei bem; para o sul, o mor­ro trans­par­ente que en­tra pe­lo mar... Três grandes bar­cos dec­ora­tivos es­tão num grupo, de proa à água, que a to­da a ho­ra es­morece. Somem-​se as casas dene­gri­das, a ag­itação e os home­ns; só o bar­co se me afigu­ra ca­da vez maior, so­bre a va­ga imen­sa do are­al, sob o re­splen­dor imac­ula­do do Sol, enchen­do o céu e a ter­ra com as suas grandes lin­has dec­ora­ti­vas. À primeira vista parece uma coisa teatral, prestes a de­scon­jun­tar-​se, só cenário e mais na­da, com qua­tro patas de­sajeitadas de bi­cho, sem o al­icerce da quil­ha a sus­ten­tá-​lo, im­próprio para o mar e para a ter­ra -obra de lavradores que re­solver­am um dia ir à sardinha. Os qua­tro re­mos pe­sadís­si­mos, com uma grande parte mais grossa e re­força­da, que se chama cá­ga­do, são co­evos do al­fange, e estes bi­cos aguça­dos, que tão bem fi­cam no are­al e no céu, não tem solidez nen­hu­ma. Na re­al­idade, um bar­co destes, que parece in­útil, é um pro­du­to de en­gen­ho sec­ular. Co­mo não há por­to nem abri­go e a em­bar­cação tem de pas­sar lo­go do are­al para a on­da que es­ca­choa, atrav­es­san­do a ar­reben­tação para sair ao largo ou para re­gres­sar à ter­ra, era necessário ofer­ecer à on­da a menor re­sistên­cia e saltar-​lhe no dor­so: -por is­so er­gueu a proa. E co­mo a dança das on­das se sucede du­rante al­guns min­utos, era forçoso tam­bém que, mal as­sen­tasse na água, lhe an­dasse ao de cima: -e a popa fugiu-​lhe para o céu. O bar­co tem ex­ac­ta­mente o feitio côn­ca­vo do es­paço que vai de va­ga em va­ga, com um pouco de es­puma fig­ura­da nas duas ex­trem­idades.

  Es­tas grandes em­bar­cações con­stroem-​se na Lagoa, onde só carpin­teiros es­pe­ci­ais lhe sabem dar o es­taleiro necessário, e vêm em car­ros de bois pux­ados por doze jun­tas até à Bar­rin­ha. São lev­an­tadas à proa, caste­lo da proa, e aguçadas até à pon­ta, bi­ca; e lev­an­ta­da à ré com a sua bi­ca na ex­trem­idade. No caste­lo da proa têm duas mãoz­in­has salientes para as lig­ar à ter­ra por uma cor­da chama­da rangedeira, não as deixan­do descair, quan­do o ven­to as im­pele e elas es­guel­ham, e qua­tro es­calamões de fer­ro onde en­tram os bu­ra­cos dos qua­tro grandes re­mos.

  Ho­je só há em Mi­ra qua­tro com­pan­has, com os seguintes ar­rais: Manuel Maria Pa­trão, Manuel Fé, Manuel Mirão e Gabriel Janeiro; mas já hou­ve onze, co­man­dadas por José Pa­trão, Manuel Cera, Ar­raiz­in­ho, Tito Mar­rete, etc., to­dos mor­