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  Os pescadores 

  Tu­do aqui é po­bre e hu­milde, mas não gros­seiro. Os home­ns trigueiros, sec­os e fortes e as mul­heres bem lançadas. Mes­mo as feias têm um ar de dis­tinção. A família é sagra­da. O con­tac­to com a ter­ra obri­ga o homem a ol­har para o chão, o con­vívio com o mar obri­ga-​o a lev­an­tar a cabeça. Quan­do saem do bar­co e o en­cal­ham, os pescadores não fazem mais na­da -deitam-​se na areia. O resto com­pete à mul­her: é ela que la­va as re­des e o peixe, que o sal­ga e car­rega e que faz a lavoura da Bar­rin­ha. A sorte destas famílias nu­merosas mel­horou muito des­de que a Câ­mara lh­es aforou ter­renos no are­al para cul­ti­vo. São as mul­heres tam­bém que, de­pois da sardinha dis­puta­da a lanço, a lev­am à cabeça para a casa da sal­ga, grandes bar­racões de madeira com man­je­douras en­costadas às pare­des para as bestas e um de­pósi­to de sal bran­co de Aveiro. É ali que o almocreve a salpi­ca de fres­co antes de se me­ter a cam­in­ho, ou as mul­heres a lavam em água en­sos­sa. Só em Mi­ra há vinte dess­es bar­racões, onde, quan­do é mui­ta, ou não tem com­prador, a metem em la­gares de madeira e em do­mas, fi­can­do de salmoura até chegar o In­ver­no -quan­do o homem es­faima­do a es­tende num pedaço de pão saben­do-​lhe a mais...

  Co­mo vive es­ta gente? Vive com sim­pli­ci­dade nos pal­heiros, casa ide­al para pescadores ou para um vel­ho filó­so­fo co­mo eu. É con­struí­da so­bre es­pe­ques na areia, com tábuas de pin­ho e um for­ro por den­tro aplaina­do. Du­ram tan­to ou mais que a vi­da: cheiram que con­so­lam, quan­do no­vas, a resina, a ár­vore descas­ca­da e a monte; ressoam co­mo um vel­ho búzio e são leves, agasal­hadas, trans­par­entes. Por fo­ra es­cure­cem lo­go e, en­vel­he­cen­do, caem para o la­do ou para a frente; por den­tro con­ser­vam uma fres­cu­ra ex­traordinária, e quan­do se abre uma janela, abre-​se para o in­fini­to. No chão, dois ti­jo­los para o lume, em es­teiras al­guns peix­es a se­car. Do Na­tal até Maio não há pesca: vão cavar para o Alen­te­jo ou para mais longe, e as mul­heres fi­cam em casa com os fil­hos. Além da jor­na, que reg­ula de qua­tro mil réis a dois mil e quin­hen­tos por dia, to­dos têm o seu quin­hão nos dias de far­tu­ra -al­guns pun­hados de sardinha ou de chichar­ros. Fe­lizes ou in­fe­lizes? Não sei bem. Ape­sar de aban­don­ados pe­lo Es­ta­do, que os rou­ba, co­bran­do-​lh­es de fis­co uma ex­or­bitân­cia, qua­tro­cen­tos con­tos o ano pas­sa­do e quase o do­bro este ano, não lh­es dan­do em tro­ca uma mater­nidade, uma pe­que­na bib­liote­ca que os in­strua, um médi­co, uma bot­ica, uma estra­da; ape­sar de aban­don­ados pe­los home­ns, sem or­ga­ni­za­ção nem in­strução, sem um padre que lh­es fale em Deus ou nas coisas eter­nas (a capelin­ha de madeira es­tá fecha­da) -es­ta gente é tão fun­da­men­tal­mente boa que há cin­quen­ta anos para cá não con­sta de um roubo, de um crime ou de um deli­to. Pode-​se dormir com a por­ta aber­ta. Eu nun­ca fechei a min­ha.

  Quan­do chegam a vel­hos e não po­dem tra­bal­har, co­mo não há um sim­ulacro de co­op­er­ati­va e a lei do se­guro os não abrange, lá se so­cor­rem uns aos out­ros co­mo po­dem. A mis­éria é quase de­scon­heci­da neste pe­queno po­vo de mais de duzen­tos fo­gos e de cer­ca de mil habi­tantes. Mi­ra, pun­hado de case­bres a apo­drecer -é um mun­do. A vi­da aqui não é uma men­ti­ra. E to­dos os dias a ar­riscam, porque quase to­dos os dias ouço as mul­heres im­plo­ran­do Deus, quan­do o bar­co vai ao mar e se enche de água. E tam­bém não é uma ex­plo­ração -es­ta vi­da po­bre e hu­milde, sob a abóba­da do céu no grande are­al de­ser­to, com Deus e o mar. 

  Até aos úl­ti­mos anos ningu