ém en­rique­ceu em Mi­ra com a pesca. A pesca é co­mo um jo­go, uma questão de sorte, e as de­spe­sas muito grandes com os bar­cos, os ar­mazéns e as com­pan­has. Já disse que ca­da com­pan­ha em­pre­ga noven­ta e seis partes e doze jun­tas de bois, que gan­ham ca­da uma catorze mil réis por dia. A com­pan­ha de­spende por ano cen­to e cin­quen­ta con­tos e até há pouco só con­sta­va de um pro­pri­etário que tivesse lu­cra­do com o negó­cio, o Figueire­do, que pas­sa por for­re­ta. Os out­ros em­po­bre­ce­ram e ain­da ho­je se fala no Car­radas, grande lavrador, que se me­teu a pro­pri­etário e acabou a pedir. Mas ago­ra, com os preços ex­ces­sivos do peixe, tu­do mu­dou de figu­ra. Já o ano pas­sa­do se gan­hou muito din­heiro, quan­do o cabaz de sardinha da­va vinte mil réis. Que fará este ano, que reg­ula en­tre cin­quen­ta e sessen­ta? Há lanços de cin­co con­tos, e já se diz que al­guns se sen­tam em li­bras so­bre os bu­ra­cos que abrem na areia para as es­con­der. As casas de sal­ga fazem tam­bém um grande negó­cio. En­riquece o almocreve, o pa­trão e o ne­go­ciante; só o pescador con­tin­ua po­bre e de­spre­ocu­pa­do. O mar nun­ca aca­ba e o mar é de­les... 

  Donde veio es­ta gente para o are­al? É a mes­ma raça pro­lí­fi­ca da beira-​mar, que nos eno­brece e que eu con­heço da Afu­ra­da até Leiria, os home­ns graves e serenos di­ante do peri­go, e as mul­heres tra­bal­hadeiras, sem­pre de chape lin­ho re­don­do e xaile. Lev­an­tam-​se de chapéu, tra­bal­ham de chapéu, deitam-​se de chapéu e cui­do que dormem com ele na cabeça. Nun­ca deix­am a beira-​mar, co­mo se a res­pi­ração do mar lh­es fos­se in­dis­pen­sáv­el à vi­da, e foram-​se es­ten­den­do sem­pre pela cos­ta até ao Al­garve, onde fun­daram uma coló­nia em Ol­hão.

  Estes, de Mi­ra, vier­am das prox­im­idades, de Mi­ra vi­la, de Por­to-​Mor, etc. Ain­da há memória de só ex­is­tirem aqui meia dúzia de pal­heiros -o do tio Sol­da­do, o do tio Domin­gos Ra­bi­ta e poucos mais. Na época da pesca acode gente do Seixo, Cabeça e out­ras povoações dos arredores.

  Além dos bar­cos grandes, usa-​se em Mi­ra a robaleira e a man­hosa, to­dos do mes­mo feitio, mas mais pe­quenos. A robaleira le­va rede de ar­ras­to e doze home­ns de com­pan­ha e a man­hosa seis home­ns e rede de emal­he, com três panos, os ex­te­ri­ores, al­bi­tanos, um de ca­da la­do do pano de den­tro. A robaleira vai tam­bém lig­ada à ter­ra por um cabo, mas a man­hosa não le­va cabo. É para a tain­ha. Cer­ca-​se e bate-​se. 

  Há cin­quen­ta anos que não lem­bra que mor­resse aqui ninguém de de­sas­tre no mar. Às vezes a on­da vi­ra o bar­co, en­volve os home­ns e deixa-​os sem sen­ti­dos. Quan­do os tiram por mor­tos, para fo­ra do mar, metem-​nos no sal co­mo as sardinhas, «para lh­es aper­tar os os­sos». É grande remé­dio, dizem. Ano pas­sa­do hou­ve um que, de­pois de es­tar no sal quarenta e oito ho­ras, ain­da tornou a si... 

  MUL­HERES

  Foz do Douro. Es­ta vel­ha, cresta­da pela des­graça e pe­lo tem­po, com sul­cos de vel­hice e de lá­gri­mas na cara, é que os im­pele para o mar. E o mar tem-​lhos lev­ado to­dos. Do­bra-​se-​lhe o cor­po ex­aus­to, rodil­ha gas­ta pela vi­da. Mas, quan­do o In­ver­no chega e a fome aper­ta, é ela que os in­juria: 

  -Má raios par­tam o mar! En­tão quereis mor­rer à fome e os mini­nos?

  Se os batéis es­tão em peri­go, corre a cos­ta, açoita­da pe­lo ven­to, beben­do as lá­gri­mas e o cus­po do mar e con­tendo o coração em far­ra­pos, com as mãos ne­gras aper­tadas so­bre a tábua rasa do peito. 

  -Quem lhe fal­ta, tiaz­in­ha? 

  -O meu fil­ho, o meu ne­to. Já o maldito me lev­ou o pai, le­va-​me ago­ra os fil­hos! 

  An­dou to­da a vi­da de lu