­to. Viu-​os de­spedaça­dos nas pe­dras e deitou to­da a ter­nu­ra que tin­ha para deitar. Mas in­ci­ta-​os, prague­ja, em­purra-​os, para que não ha­ja fome em casa. Só o mar dá o sus­ten­to e a morte. Há mais de um mês que du­ra o In­ver­no. 

  -Má raios par­tam o mar! 

  E corre com as re­des à cabeça, a ces­ta no braço e os soluços repre­sa­dos na gar­gan­ta, levan­do o ne­to atrás de si a ras­to para o bar­co. 

  -Ten­ho chora­do tan­tas lá­gri­mas co­mo aque­le mar sal­ga­do!... 

  Ao es­cure­cer, na Cantareira, pas­sam da fonte as ra­pari­gas, com o cân­taro à cabeça e as mãos na cin­ta. É a ho­ra do namoro. Param a con­ver­sar com os ra­pazes, que as es­per­am nos varais. Em Mi­ra e à clara luz do Sol: elas sen­tadas, eles deita­dos de bruços, ati­ram-​se de quan­do em quan­do pun­hados de areia. Em Matosin­hos, os pares vão de mãos dadas pe­lo are­al fo­ra, en­quan­to a vel­ha cautelosa espre­ita à por­ta e ral­ha: 

  -Ol­ha lá se perdes a cor­tiça da mar­ca, ra­pari­ga! 

  -Não há-​de ter dúvi­da... -E sor­ri, en­ver­gonha­da. 

  -Vai com ele para a pra­ia e de­pois põe-​te a bar­regar: «Ó tio, ó tio, deite para cá o ba­tel.» 

  Há muitos traços que só de­scorti­no em son­ho: uma vel­ha com a bo­ca des­den­ta­da sem­pre a rir-​se para mim quan­do eu pas­sa­va. Es­que­ci a figu­ra e a fi­siono­mia var­reu-​se-​me de to­do -mas a bo­ca, só com um dente a es­cor­rer ter­nu­ra, le­vo-​a comi­go para a co­va. Out­ros pe­quenos quadros me recor­dam. Nadas. Ran­chos de ra­pari­gas que an­dam na maré à graval­ha, de per­na fi­na, cur­vadas e puxan­do para si restos de lenha. Os tipos mais gros­seiros das moças ruivas e sar­den­tas, mol­hadas, tres­pas­sadas de sol e de sal­itre, que cor­rem as estradas de Matosin­hos, co­mo as de cal­can­har racha­do que pisam os cam­in­hos de Es­posende e as ruas de Gon­tin­hães, cheiran­do a peixe, a al­ga e a sar­gaço, com a canas­tra à cabeça e a per­na nua à mostra. E en­tre to­das elas, uma de pele doira­da, com um pique a mare­sia, que da­va um in­stan­tâ­neo: es­voaçavam-​lhe os ca­be­los loiros e o riso aflo­ra­va-​lhe à bo­ca sem quer­er, co­mo se to­da ela fos­se riso: -Vi­va da Cos­ta!

  A san­joaneira cal­ca to­do o dia a estra­da ribeir­in­ha, a vender peixe ou a faz­er car­retos. Às vezes trazem os pe­quenos ao co­lo. A Pa­peira é mãe e avó de home­ns louros, grandes co­mo tor­res, dis­per­sos pe­lo Brasil e pe­lo mar, e ain­da gan­ha para com­er com a canas­tra. A Joaquina das Coxas não sei dela... A san­joaneira traz a casa lava­da, e mel­hor do que lava­da, trá-​la as­sea­da. É o hábito anti­go, do navio. É es­per­ta. Gov­er­na o homem e dirige o negó­cio. Vende, apre­goa e re­men­da. Não se deixa dom­inar pela des­graça. Con­ser­va as re­des lavadas e en­cas­ca-​as. Tra­bal­ham tan­to e mais que os pescadores. Con­heci muitas que, fi­can­do com os fil­hos por cri­ar, aguen­taram a família nu­merosa venden­do peixe nas estradas.

  Sen­to-​me nos de­graus da min­ha vel­ha casa e sei a vi­da to­da des­ta gente. Ali de­fronte são os tan­ques, onde vinte, trin­ta mul­heres de sa­ias ar­regaçadas lavam a roupa su­ja. Gri­tos, rixas, alar­ido. Um mo­men­to de silên­cio e ou­ve-​se o bater com­pas­sa­do da maré que vai, vem e lh­es mol­ha as per­nas nuas. Pe­ga­da à min­ha casa fi­ca a do Moutin­ho viela es­cu­ra, tra­pos, peixe e dez famílias nu­merosas. E do out­ro la­do a fonte de gran­ito, para onde pas­sam as ra­pari­gas com as mãos na cin­ta e o cân­taro de bar­ro equi­li­bra­do à cabeça so­bre a rodil­ha. 

  Sei tu­do. A vi­da vem para a rua a ca­da pas­so. Gri­tos de mul­heres, de­scom­pos­turas... E de­pois de se ati­rarem os po­dres à cara umas das out­r