as, acabam por se en­galfin­har pe­los ca­be­los, en­quan­to o ra­pazio for­ma ro­da e as açu­la. Sep­aram-​nas. E des­gren­hadas, ex­ci­tadas, é o mo­men­to em que dizem os úl­ti­mos palavrões... Saibam to­dos... -Se­jam muito boas teste­munhas... -Aco­dem as do tanque e as da fonte. A vi­da é ali ex­pos­ta. Mais gri­tos. En­rodil­ham-​se ati­ran­do os braços ao ar. Ninguém se en­tende já. Vai haver mortes, com certeza -e ca­da um parte para seu la­do, com os fil­hos agar­ra­dos às sa­ias. Daí a bo­ca­do começam a pas­sar as ami­gas, para casa du­ma e doutra, com a caneca do café de­baixo do aven­tal... 

  Out­ra vez re­bu­liço -ago­ra é na fonte. Bal­búr­dia. Al­gu­mas são des­bo­cadas, e aque­la, no auge da fúria, cur­va-​se e bate pal­madas em cer­to sí­tio, so­bre as sa­ias -quan­do não faz pi­or e o mostra... En­tão o barul­ho en­sur­dece. -Bat­este no meu fil­ho, grande por­ca! -Ar­ro­la­da! -diz a out­ra. Ar­ro­la­da é a pi­or de to­das as in­júrias... Dois cân­taros par­tidos nas cabeças. A água in­un­da-​as e re­fres­ca-​as. E tu­do vol­ta ao silên­cio. Só se ou­ve can­tar nos tan­ques e o bater com­pas­sa­do da on­da no cais. Aí tor­nam a pas­sar as ra­pari­gas, com o cân­taro à cabeça, a mão na cin­ta, e um fio húmi­do a es­cor­rer-​lh­es pela cara, ape­sar da cor­tiça que us­am à su­per­fí­cie da água, para não se es­pal­har o líqui­do... 

  A Afu­ra­da fi­ca da out­ra ban­da do Douro, casas ap­in­hadas em duas ou três ruas cheiran­do mal. Tri­pas de peixe pe­lo chão e uma vi­da que formi­ga nas taber­nas, nos bu­ra­cos e nas cri­anças que se en­rodil­ham nas per­nas de quem pas­sa. O tipo é de Íl­ha­vo, de Ovar ou da Mur­tosa, não sei bem, que fun­dou uma coló­nia neste re­can­to do Douro. O homem per­corre in­ces­san­te­mente o rio ou o mar ra­pan­do-​o, até ao fun­do, do mexoal­ho com que se adubam as ter­ras, da sol­ha nas areias, da faneca ou da sardinha na bo­ca da bar­ra e do sáv­el quan­do ele vem à des­ova. As mul­heres, al­tas, airosas e trigueiras, tra­bal­ham co­mo mouras. Ten­ho-​as vis­to lançar as re­des e re­mar naque­les lin­dos bar­cos feitos com duas cas­cas de tábua, bateiras ou saveiras, com que os home­ns atrav­es­sam a ter­rív­el bar­ra do Douro, mor­ren­do muitas vezes, voltea­dos pelas on­das, quan­do re­gres­sam com a bor­da meti­da na água. Mul­heres que têm fil­hos às nin­hadas e que nem por is­so deix­am de cor­rer as ruas da cidade, com a canas­tra à cabeça e o pé descalço, o pregão na bo­ca e o mais no­vo ao co­lo ou deita­do no fun­do do ces­to com um resto das sardinhas à mis­tu­ra. An­dam léguas, são in­fatigáveis e já as vi lançar soz­in­has as re­des do sáv­el, puxá-​las para a ter­ra e di­vidir o quin­hão. 

  A de Mi­ra, feia mas es­belta, tem um ar grave e sen­ho­ril quase sem­pre. La­va as re­des, puxa os ca­bos, car­rega os gi­gos, co­zin­ha no lar en­fu­ma­do com dois ti­jo­los e faz a lavoura - «o pra­zo». Em re­sumo, a mul­her tra­bal­ha mais do que o homem -tra­bal­ha o do­bro do homem. Não sai de Mi­ra, não vende o peixe, mas an­da em­pre­ga­da na com­pan­ha, por con­ta do pro­pri­etário, ou sal­ga, por con­ta do almocreve. No in­te­ri­or de tábuas pos­sui um cân­taro, dois potes, al­guns far­ra­pos nas pare­des e uma enx­er­ga so­bre os ban­cos. Ve­jo-​as aos gru­pos, à es­pera que sa­ia a rede ou à ro­da de um fog­aréu onde as­sam as batatas. Ve­jo-​as, num car­reiro de formi­gas, subindo e de­scen­do o are­al, al­tas e di­re­itas, do hábito de car­regar o gi­go à cabeça, ou à vol­ta do saco, haste bem lança­da para o céu, sem­pre vesti­das de es­curo e o lin­do chape lin­ho so­bre o lenço. A Florin­da Ra­bi­ta sen­ta-​se ao pé de mim e con­ta-​me a sua v