i­da de des­graça. Traz um pe­queno ao co­lo, com o ol­har in­ex­primív­el das cri­anças que sofrem, e mais dois se chegam para ela. Sem es­pal­hafatos, com uma dor con­ti­da e um ar modesto, fala do homem mor­to e de três fil­hos para sus­ten­tar com al­guns tostões por dia. Dei­ta sangue pela bo­ca e to­do o dia, em­pre­ga­da na com­pan­ha, per­corre o are­al, para baixo e para cima. Aguen­ta-​se co­mo pode. É um tipo dori­do, destes que vivem e mor­rem com dig­nidade, sem ninguém lh­es ou­vir uma queixa. De quan­do em quan­do vem-​me à ideia es­ta figu­ra de doente, com três fil­hos agar­ra­dos às sa­ias, a car­regar até ao fim, até cus­pir o úl­ti­mo far­rapo de pul­mão. 

  Quan­do pas­sei na Gafan­ha, vi as ca­chopas da beira-​rio, to­das mol­hadas, sem­pre meti­das na água a ra­par o moliço. Feias e in­génuas. A uma cal­culei-​lhe: -Tem para aí treze ou catorze anos. -Ten­ho vinte e um e três fil­hos, re­spon­deu. -Out­ra tin­ha fi­ca­do a ol­har para mim com ol­hos in­ocentes de bi­cho e as mãos postas so­bre os seios re­dond­in­hos -so­bre aqui­lo, co­mo diz a Ti Ana, que o Sen­hor lhe deu e ela pre­cisa ... 

  A Ti Ana Arneira, com cu­ja amizade me hon­ro, é um dos meus mel­hores con­hec­imen­tos da Gafan­ha. Mul­her ca­pa­zona, co­mo por lá se diz. Acom­pan­ha-​me pe­lo are­al e con­ta-​me lo­go à primeira a sua vi­da. Tipo atar­ra­ca­do e forte, de grossos quadris, vesti­da de es­curo, chapéu na cabeça e aguil­ha­da em pun­ho. O homem foi para o Brasil há muitos anos (-É o rei dos homes!... -), fi­cou ela e os fil­hos por cri­ar. Criou-​os to­dos. Ne­tos, doenças, lu­tos. Nun­ca de­san­imou. A força que a sus­ten­ta é ad­miráv­el, pro­fun­da e rad­ica­da, co­mo a de quase to­das as mul­heres do po­vo que con­heço. Deitou-​se à vi­da -lavrou os cam­pos. Vier­am mais aflições e out­ras mortes. 

  -En­tão de que lhe mor­reram os fil­hos? 

  -Sei lá, a morte não se quer cul­pa­da. Era pre­ciso sus­ten­tar a família. Pe­gou nos bois e no car­rin­ho e começou a trans­portar sal da Gafan­ha para Mi­ra. Fez mais: antiga­mente, no Ar­ião tam­bém havia cam­pan­has e, quan­do fal­ta­va um pescador, a Ti Ana agar­ra­va-​se ao re­mo co­mo um homem e ia ao mar no bar­co. -Nem do Di­abo ten­ho me­do. Só ten­ho me­do aos cães loucos. -A ex­ten­sa planí­cie, que atrav­es­sa, duas, três vezes por dia, é um de­ser­to. A Ti Ana vai e vem de noite, soz­in­ha, com os bois que lhe fazem com­pan­hia. Ago­ra tem um cam­po, bar­cos para o moliço, novos ne­tos para cri­ar -e ol­ha cara a cara o des­ti­no sem es­more­cer. A sua vi­da é uma grande lição de en­er­gia. 

  A mul­her da Mur­tosa, dizem os en­ten­di­dos, não se con­funde com a de Íl­ha­vo e de Ovar: é baixa e atar­ra­ca­da, e a de Ovar del­ica­da e forte, al­ta e bem pro­por­ciona­da, cheia de pred­ica­dos domés­ti­cos e morais. As de Íl­ha­vo pas­sam por as mais lin­das, pe­lo sor­riso que en­can­ta, pe­lo ol­har e pela ma­gia que ex­alam. Que o agradeçam à ria. To­das as mul­heres da beira mar­in­ha são postas em destaque pela luz car­in­hosa que as en­volve e pro­tege. Cri­am-​se nes­ta es­plên­di­da pais­agem de água e cor, ao mes­mo tem­po pací­fi­ca e del­ica­da. No meu en­ten­der, a luz é o grande agente da beleza. A ria tem uma luz co­mo nun­ca vi em parte nen­hu­ma. É doira­da e vi­va, sem ser forte. É fei­ta de água azul tres­pas­sa­da de sol. Nem mes­mo em pleno Verão sen­ti que fos­se du­ra. Abre co­mo um sor­riso -morre quase sem­pre en­terneci­da. É sã sem chegar à saúde ex­uber­ante. É sã e del­ica­da. En­volve os seres e as coisas do mes­mo tom car­in­hoso e mei­go. As mul­heres de­sen­volvem neste am­bi­ente uma al­ma ser­ena e re­spon­dem ao sor­riso da luz com um sor­riso de