 ter­nu­ra. São co­mo cer­tas flo­res, cri­adas num mo­men­to fe­liz, que atingem a per­feição. O que aqui fi­ca bem é o vesti­do es­curo e a limpi­dez de sen­ti­men­tos. Es­ta luz in­teligente sabe muito bem que a arte é o en­can­to da vi­da e a mul­her a supre­ma cri­ação da arte. 

  A poveira, a bem diz­er, é um homem. Feia e rude, per­nas co­mo tran­cas. Já se tem ati­ra­do para den­tro das lan­chas, obri­gan­do os home­ns a ar­rostar com o tem­po­ral. Ou eles, ou elas. São mães ex­tremosas e grandes parideiras de fil­hos para o mar. Quan­do lh­es chega o tem­po, metem-​se na ca­ma, com um casaco ou uma calça dos home­ns pe­los om­bros, es­peran­do a ho­ra com paciên­cia. Só têm o cuida­do de que a luz da graxa fique ace­sa to­do o dia e to­da a noite no case­bre, para que o mini­no ten­ha almin­ha.

  O seu noiva­do du­ra pouco -o que du­ra sem­pre é a amar­ga vi­da tra­bal­hosa. Dantes o moço, em vésperas de casório, ata­va o lenço da noi­va, co­mo ban­deira, à proa do bar­co. Duas lan­chas, as en­vi­adas, iam apan­har-​lhe o peixe para a bo­da. E elas fi­avam du­rante meses o ticum para as re­des do casal!...

  Eter­nas sac­ri­fi­cadas, tiram-​no à bo­ca para apar­el­har o ces­to dos home­ns: ven­dem, car­regam as re­des, lavam-​nas, sem um fio enx­uto no cor­po, metem o om­bro aos bar­cos para os deitar ao mar. Acaba­da a pesca, to­do o tra­bal­ho cabe à mul­her, que fab­ri­ca a graxa, que tra­ta dos fil­hos, que faz re­des, as la­va e as con­ser­ta e que vai vender por ess­es cam­in­hos fo­ra. 

  E ain­da o pi­or para to­das es­tas mul­heres não é serem bestas de car­ga, dias atrás de dias en­char­cadas e es­cor­ren­do salmoura... A mo­ci­dade du­ra-​lh­es o que du­ram as rosas. Quase sem­pre de uma beleza del­ica­da, a mul­her da beira-​mar, com ex­cepção da do Al­garve, que é «a pren­da da casa», lo­go que casa car­rega com quase to­do o pe­so do lar, cres­ta-​se e en­vel­hece. Acusam-​na de im­pre­vidên­cia. Im­prev­idente é o homem, que gas­ta na taber­na tu­do o que gan­ha. O lavrador é avaro: tira o pão da ar­ca a me­do, co­mo quem sabe o que ele lhe cus­ta de es­forços per­sis­tentes -o pescador, num dia de far­tu­ra, enche a casa de pão. E o mar in­es­gotáv­el não lhe foge... Mas ela não. Ela, re­men­da, poupa e vai ar­rancá-​lo à taber­na. Con­heço-​lh­es des­de pe­queno os ex­tremos de ded­icação e de força di­ante da des­graça. Es­ta po­bre mul­her -ter­ra virgem de ter­nu­ra -mere­cia um lu­gar à parte na nos­sa ter­ra, pela sua ab­ne­gação, pela sua en­er­gia, e até pela dis­tinção de sen­ti­men­tos. Em Mi­ra, o lar é sagra­do. É-o em to­das as povoações da cos­ta por­tugue­sa que fi­cam longe dos cen­tros cor­rup­tores. 

  Mas o tra­bal­ho pe­sa­do não é ain­da o pi­or -o pi­or é o so­bres­salto con­stante da sua vi­da. A da lavoura tem o lar se­guro. Vem o In­ver­no temeroso e a noite que não tem fim. Fecha­da no case­bre, à ro­da do lar, ela, o homem e a moça, com o fil­ho no berço (ao la­do, na corte, os bois far­tos es­moem) -sente-​se tran­quila: sabe que na ar­ca puí­da há meio car­ro de pão, o suor do seu ros­to e al­gu­mas moedas jun­tas. Pode o tem­po­ral abalar o tec­to de col­mo e o nevão cair lá fo­ra. Ar­dem os raizeiros no lume e as trav­es de cas­tan­ho são eter­nas. O bu­ra­co tem al­icerces de gran­ito até ao fun­do do globo. Quan­to ao pescador, esse há-​de ir ao mar, úni­co cam­po que lavra, ain­da que ar­risque a vi­da. Os pe­quenos pe­dem-​lhe pão e ele não tem out­ro ofí­cio. O tem­po es­tá mau e dias atrás de dias pas­sam. -Sem­pre vou... -Ela sente o coração oprim­ido, mas cala-​se. Sabe per­feita­mente pelas out­ras o fu­turo que a es­pera. Quan­tas con­heci sem­pre de lu­to, sem ir mui