to longe da min­ha casal... Por fim diz: -Pois vai... As re­des, a ces­ta e ele em­bar­ca. Fi­ca soz­in­ha na noite que não tem fim. Fi­ca com ela um ban­do de pe­quenos, e, com o coração aos saltos, põe o ou­vi­do à es­cu­ta... A on­da brame no cabe­de­lo com um eco pro­lon­ga­do. -Não tem dúvi­da, é o mal que chama o leste. -Mas ago­ra a voz é out­ra, mais fun­da, o ven­to mu­dou para sul e a bar­ra cer­ra-​se. -Irão ar­rib­ar a Leixões?... -Que tem­po no mar al­to, na noite trág­ica, e só ne­grume em ro­da! Nas mãos de Deus!, nas mãos de Deus!

  Cabe-​lh­es sem­pre o pi­or quin­hão da ne­gra vi­da. Tra­bal­ham o do­bro dos home­ns e vivem mais do que eles, porque sofrem muito mais. 

  Con­heço na Foz es­ta mul­her a quem chamam a Ra­ta, cor­co­va­da, com uma sa­ia pe­los om­bros, a apan­har peixe roí­do que lhe ati­ram por es­mo­la -um cação, uma ra­ia ou uns pun­hados de sardinha em dias de far­tu­ra. Vel­ha, du­ra e ne­gra, cheiran­do a peixe en­tran­hado nos far­ra­pos e a sal de sardinha, vive na Corguin­ha, en­tre pedaços de rede e de tábuas que o mar ati­ra à cos­ta. Pas­sa o In­ver­no na ressaca a apan­har o moliço com as mãos. Não tem ninguém. Não fala nem pede. É a Ra­ta, que corre a lingue­tas mal chegam as catra­ias e os batéis. Uma vez per­gun­tei a um vel­ho meu ami­go, que es­tá sem­pre de cachim­bo na bo­ca, quem era ela. 

  -Não sei, é a Ra­ta.

  Mo­rou muito tem­po em So­breiras -e era a Ra­ta das So­breiras. De­pois mu­dou para a Corguin­ha, onde vive num bu­ra­co que em­pes­ta a graxa de peixe e a ra­ias es­cal­adas. Pas­sam-​se às vezes se­manas que ninguém vê es­sa figu­ra descar­na­da, su­ja, com a sa­ia de re­men­dos pe­los om­bros. Mas chega o In­ver­no, e nos dias de peri­go a Ra­ta é a primeira a apare­cer. No céu lívi­do, es­pumas que o tem­po­ral ati­ra à cos­ta. O ca­maroeiro iça­do. Nos pene­dos, os grandes ro­los coléri­cos de­spedaçam-​se em ri­bom­bos que ecoam, er­guen­do até ao céu es­gui­chos de água com laivos amare­los dos fun­dos. A voz é temerosa. Os home­ns es­tão em peri­go. Apare­cem as mul­heres de­ses­per­adas. já se sabe que vai mor­rer al­guém.

  Não se su­por­ta o ven­to acolá no farolim, ou nos pene­dos da pra­ia. Só a Ra­ta es­tá de pé, no meio do tem­po­ral, ig­no­ra o clam­or; não dá pela água que a açoi­ta, nem ou­ve os gri­tos das mul­heres. Parece uma es­tá­tua sob o céu de chum­bo. To­das as out­ras rezam. Um mo­men­to de an­siedade. Corre-​se ao sal­va-​vi­das. Vi­da ou morte? To­das ajoel­ham com os braços ati­ra­dos para o céu -e a Ra­ta con­tin­ua im­passív­el co­mo o des­ti­no; seus ol­hos fixos não se de­spegam daque­le es­pec­tácu­lo tremen­do. Nem um es­tremeção, nem um gesto. 

  -O es­tu­por da vel­ha!... - mur­murei. 

  E en­tão aque­le homem cal­ado, de cachim­bo na bo­ca, disse-​me baix­in­ho, ao ou­vi­do: 

  -O mar lev­ou-​lhos to­dos... 

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