ara a lançar so­bre ro­letes en­se­ba­dos pela lingue­ta abaixo. São quinze home­ns co­mo tor­res com o ar­rais e o moço. É o Jeremias, al­to, de bar­bas de sar­gaço, o Bilé e o Man­dum, o Joaquim So­ta, o meu com­padre Ma­tias, o José das Fa­cadas, o Mouco e o Bex­iga, queima­dos pe­lo ar do largo, aque­le vel­ho de cachim­bo nos dentes, que de tan­to re­mar fi­cou cur­va­do para sem­pre, o Manuel Ar­rais, grisal­ho e cal­ado, e o moço, o Nel, de ol­hos in­ocentes de bi­cho, que vai pela primeira vez ao mar. 

  -Ago­ra!

  As mul­heres da fonte deix­am os cân­taros e deitam a cor­rer, e a com­pan­ha mete o om­bro ao costa­do do bar­co e -oupa! -, rete­san­do os mús­cu­los, em­purra a Sen­ho­ra dos Nave­gantes, que desliza nas pe­dras e en­tra no rio. Dois home­ns saltam den­tro e lev­am-​na para as amar­ras.

  Estes fac­tos in­signif­icantes im­pres­sion­aram-​me para sem­pre a reti­na e a al­ma. Muito tem­po per­di-​os no tro­pel da vi­da, im­põem-​se-​me ho­je com um rele­vo ex­traordinário. Ve­jo out­ra vez tu­do; as fi­siono­mias, as coisas, a cor e  a luz. Ve­jo os bar­cos en­cal­ha­dos com as le­tras mal feitas, es­critas a piche no costa­do, Vai com Deus, Sen­ho­ra da Aju­da, Deus te Guie, as re­des nos varais e os pescadores de ag­ul­ha na mão a re­mendá-​las, as catra­ias e os batéis nas lingue­tas. Ve­jo as mul­heres sen­tadas nos de­graus, a Maria da Viela, as Pa­peiras e as Bex­igas. Man­hã de não sei quan­do, man­hã que não ex­iste e vou de­sen­ter­rá-​la tal qual, azul e névoa, névoa e mar... Alar­ido nos tan­ques: chegam os batéis da sardinha. Em so­breiras, as mul­heres ar­ras­tam os quar­tos do sáv­el, meti­das na água até à cin­ta... Quem quer gan­har um quin­hão?... Além é o cabe­de­lo e o mar des­feito em pó azul, e a Out­ra Ban­da in­teira­mente verde. Con­heço aque­le grande pin­heiro man­so so­bre a casa góti­ca des­de que me con­heço, os areais e o largo rio, onde dois ou três bar­cos da Afu­ra­da pescam a tain­ha. O homem ati­ra a rede e a mul­her, num gesto rít­mi­co, bate com o bicheiro na água para as­sus­tar os peix­es, que se vão lançar na mal­ha.

  São nadas que farão sor­rir os out­ros. São efec­ti­va­mente nadas... E no en­tan­to re­con­heço que es­sa foi a mel­hor parte da min­ha ex­istên­cia, min­uto úni­co de saudade em que a luz se sus­pende e o uni­ver­so se en­tran­ha para sem­pre na al­ma. É a própria vi­da com um en­can­to que não tor­na, é o abrir dos ol­hos para uma man­hã de­li­ciosa, quan­do se salta pela primeira vez do nin­ho e se sente ain­da o calor do nin­ho. Tu­do é no­vo e es­plên­di­do. Em­bria­ga o ar que se res­pi­ra e o primeiro son­ho que son­hamos. É no­vo e cheio de sur­pre­sas o Verão, quan­do os grandes bar­cos ra­be­los, a vela lati­na cheia de ven­to e o homem em cer­oulas no al­to da carangue­jo­la, car­rega­dos de achas que cheiram a bravio, de­scem de­va­gar as águas; é no­vo o In­ver­no quan­do a grande toal­ha líqui­da das cheias bril­ha e o sol re­luz com mais gos­to, ou quan­do aque­la voz rude en­grossa, começa a pre­gar e a lu­fa­da não ces­sa de bater nas vidraças. -Es­tá al­guém fo­ra da bar­ra? -E as vi­gas do trave­ja­men­to rangem co­mo as quil­has dos navios, e a noite trág­ica, em que supon­ho ou­vir gri­tos, nun­ca mais aca­ba.

  A voz cresce... Ouço-​a ago­ra per­to, ouço-​a mel­hor. O que foi eco quase ex­tin­to au­men­ta num clam­or ca­da vez mais al­to, chaman­do de no­vo por mim... 

  Jun­ho -1921

  É que tu­do, até as coisas, num da­do mo­men­to, foram para mim seres de uma vi­da ex­traordinária; um ser es­plên­di­do, o rio, a que me en­trego den­tro de qua­tro tábuas; o cabe­de­lo cheio de mis­tério, onde pon­ho os pés com ter­ror; o largo, o pro­fun­do