 mar, que me lev­ou al­guns dos meus, con­stante pre­ocu­pação des­ta gente e que de quan­do em quan­do os ma­ta à min­ha vista. As fig­uras em son­hos tor­nam-​se a de­bruçar para mim, es­ten­den­do-​me out­ra vez as mãos... E é son­han­do tam­bém que me recor­do de cer­tas coisas sem im­portân­cia: do jeito que era pre­ciso dar às por­tas man­hosas, para as poder abrir, de uma ex­pressão de que me sep­aram léguas de es­quec­imen­to, de pe­quenos nadas que du­ram um se­gun­do, um ol­har ou um sor­riso mol­ha­do de ter­nu­ra. Acon­tece que às vezes acor­do ten­do di­ante de mim in­tac­to um ros­to con­sum­ido pela ter­ra...

  Os meus mor­tos es­tão ca­da vez mais vivos. 

  É saudade, mas não é só saudade. Is­to vem de muito fun­do. Os meus ac­tos são guia­dos por mãos de­sa­pare­ci­das e a min­ha con­vivên­cia é com fan­tas­mas. Este cheiro a al­ca­trão vou levá-​lo nas nar­inas para a co­va; es­ta pais­agem -mar, rio e céu -en­tran­hou-​se-​me na al­ma, não co­mo pais­agem, mas co­mo sen­ti­men­to. Ressus­ci­to as ho­ras que per­di de­bruça­do no vel­ho muro e sin­to o grão da pe­dra onde pun­ha as mãos quan­do con­tem­pla­va a en­gen­ho­ca do meu viz­in­ho An­tónio Luís, que com es­cor­ros de água, dois arames e um bo­ca­do de cor­tiça, fazia manobrar uma azen­ha, O moleiro e o com­pe­tente bur­ro com os sacos de far­in­ha, de uma maneira mais ab­sorvente que to­das as mág­icas a que as­sisti mais tarde nos teatros de Lon­dres. Ressus­ci­to as primeiras im­pressões.

  A Foz es­tá vi­va! Ten­ho-​a di­ante de mim, a Foz de out­ro­ra, a Foz que já não ex­iste, a Foz dos mor­tos, com o movi­men­to, os tipos e a pais­agem. Lá em cima, o Monte tinge-​se de sol, cá em baixo, o rio tinge-​se de azul. A Cantareira, num cantin­ho, adormece - a grande fonte de gran­ito doira­do, a casa do An­tónio Luís, a nos­sa vel­ha casa com os de­graus de pe­dra, os varais das re­des até à Corguin­ha la­jea­da de grossos bur­gos -e ao largo o farol. O mar em­bala o cabe­de­lo. Uma luz co­mo não há out­ra e que es­tremece com o movi­men­to e os re­flex­os da água, um ar co­mo não há out­ro e que ain­da ho­je respiro co­mo a própria vi­da! Silên­cio... A Foz vai doiran­do lenta­mente, ano atrás de ano, cresta­da pe­lo ar da bar­ra, ca­ma­da de sol, ca­ma­da de sal­itre...

  O que re­vi­vo mais pro­fun­da­mente? Re­vi­vo a ex­pressão de uns ol­hos húmi­dos que me seguiam sem­pre, e com­preen­do que to­da es­ta cor e este oiro que de­sa­pare­ce­ram e teimam em re­luzir cor­re­spon­dem a um mo­men­to úni­co da vi­da em que se de­sco­bre o mun­do que vai mor­rer e que se fixa por fim em saudade e ter­nu­ra. É o que ten­ho mais pe­na de deixar quan­do sin­to que me lev­am não sei para onde e ca­da vez mais longe. Agi­ta-​se en­tão em son­hos o mun­do que não ex­iste, e os mor­tos adquirem uma ex­pressão que é a da min­ha própria al­ma. Se is­to é ter­nu­ra, a ter­nu­ra é o que há de mel­hor no mun­do; se é saudade, a morte é o que há de mel­hor na vi­da.

  A própria pais­agem só de­pois que a per­di é que a en­ten­di bem, talvez porque a amo mais. Di­ante de mim têm des­fi­la­do as maiores e as mais be­las, mas há uma hu­milde que faz parte in­te­grante do meu ser.

  A vi­da pas­sa e um mo­men­to da vi­da não pas­sa mais trans­for­ma-​se. E a aprox­imação da morte reveste-​o de out­ra cor. Por is­so ago­ra ve­jo tu­do ca­da vez mais níti­do... Ve­jo os bu­ra­cos nos muros e os re­flex­os ao lume de água, que du­ram um mo­men­to e se ren­ovam sem­pre. É o sol que lh­es dá vi­da e os ilu­mi­na. São in­stan­tâ­neos. Movem-​se, somem-​se e dão lu­gar a out­ros. São ag­ita­dos e doira­dos, Uma aparên­cia, um jo­go de luz, co­mo as ex­istên­cias e