fémeras que pas­sam e o son­ho que não deixa vestí­gios e só um in­stante se de­sen­ha à su­per­fí­cie da vi­da... 

  Tu­do du­ra o que du­ram os re­flex­os ag­ita­dos. Só este rio imen­so segue o seu cur­so in­al­teráv­el e in­ces­sante para aque­le mar pro­fun­do. 

  Ida ao mar 

  5 de Setem­bro 

  Se fe­cho os ol­hos, sin­to lo­go es­ta mão áspera e enorme que me le­va na noite húmi­da e cer­ra­da. Não ve­jo o mar, mas en­volve-​me e pen­etra-​me o hál­ito sal­ga­do e ouço-​lhe ao longe o clam­or. No primeiro plano ecoa o desabar in­in­ter­rup­to, de­pois, lá ao fun­do dis­tin­go out­ra voz mais rou­ca e para além um lamen­to que não ces­sa, donde ir­rompe de quan­do em quan­do um gri­to. De noite apa­ga-​se o mun­do e só es­ta voz enche o mun­do... São três ho­ras. O moço an­da de por­ta em por­ta ba­ten­do com um seixo. E vai chaman­do na cer­ração Ó sê Manuel, cá pra baixo prò mar! -E, mais afas­ta­do, toma out­ra vez a sair do es­curo o ape­lo pro­lon­ga­do, co­mo se fos­se o mar que os chamasse um a um: -Ó sê José... cá pra baixo prò mar! -O ar­rais le­va-​me pela mão até à lingue­ta vis­cosa e salto den­tro da catra­ia. Ru­mor. Vul­tos. Al­guns home­ns ajeitam-​se nos ban­cos, out­ros fin­cam os re­mos nas pe­dras para afastarem o bar­co.

  Mais per­to, sem­pre mais per­to, o bafo sal­ga­do... Uma lu­fa­da, uma on­da -um ah mon­stru­oso -, o clam­or ne­gro e es­pes­so -e saí­mos a bar­ra. Chego-​me para o ar­rais, que não larga da mão a cana do leme, imóv­el e aten­to. Mete-​me me­do o ne­grume que não tem lim­ites de es­curidão e de vi­da e de que me sep­ara a es­pes­sura de uma tábua. A maré vaza. O ar­rais man­da: 

  -Iça a vela! 

  Os home­ns saltam nos ban­cos e o pano bate no es­curo. 

  -Ó iça! ó iça!...

  A es­co­ta range no moitão e a grande vela tri­an­gu­lar sobe, de­bate-​se, enche-​se de ven­to. A catra­ia mete a bor­da. Uma hes­itação na mar­cha e lo­go nos en­tran­hamos na ag­itação in­fini­ta, na noite in­fini­ta. À luz da lanter­na re­mex­em som­bras in­de­cisas. São os home­ns que se deitam nos ban­cos ou no fun­do do cav­er­name en­tre os baldes, os bate­dores e o grande cabo do mar de oiten­ta braças, que serve para largar o an­corote quan­do a bar­ra se fecha à en­tra­da. Só o ar­rais con­tin­ua agar­ra­do ao leme, de ol­hos fixos na ag­ul­ha de marear. Chego-​me mais para ele... Água ne­gra, res­pi­ração ne­gra. Um frémi­to de vi­da, uma hu­mi­dade que se co­la à bo­ca e às mãos e a es­curidão, mas a es­curidão co­mo um ser imen­so que não dis­tin­go e de que sin­to o con­tac­to -um fôlego cego e vi­vo que re­mexe lá ao longe, cheio de mis­tério, de u-​u-​u des­or­de­na­do e que desa­ba em mon­tan­has e salpi­cos amar­gos. Vem até mim. Rodeia-​me. Quase lhe ve­jo as mãos enormes. Es­cu­to o ne­grume cheio de ru­mores, de vozes, de som­bras movediças, que se de­bruçam para nós co­mo um che... che... mais al­to, mais baixo, que não ces­sa. Um gri­to parece vir de muito longe, da vi­da mon­stru­osa e pro­fun­da em que me en­tran­ho. Mas já me não mete me­do o mar. O lampião ilu­mi­na a cara do ar­rais, rude e grave, ser­ena. E a meu la­do a água es­cor­re­ga no costa­do, chape-​que-​chape, sem­pre com o mes­mo ruí­do monótono que adormece e em­bala.

  É da ter­ra que vem a luz. Um livor in­de­ciso e de­pois um chu­veiro.

  -A chu­va san­gra o ven­to -diz o so­ta baix­in­ho.

  Para acolá, a nó­doa an­da à tona da água co­mo um ol­har sem ex­pressão: es­par­ral­ha-​se no céu. Mas para o largo a noite imen­sa que nos tra­ga re­do­bra de es­pes­sura: o ne­grume au­men­ta. Só no nascente a clar­idade se dilui em nebli­nas, em far­ra­pos e névoas es­parsas que flu­tu­am. 