Sobem, deix­am-​se cair em véus moles so­bre as águas. Es­con­dem o mar. Du­rante um mo­men­to, um fio azul es­tremece à su­per­fí­cie, e lo­go a corti­na va­porosa se mis­tu­ra à ex­alação das águas e cer­ra-​se de to­do. Es­perem... Uma va­ga, uma on­du­lação verde, out­ra ain­da... Mais névoa... luz... um grande far­rapo des­gren­hado... O es­ter­tor não ces­sa, mas sente-​se que a névoa se adel­gaça pouco e pouco, en­quan­to o ne­grume se con­cen­tra e re­cua mais para longe e o ar adquire uma transparên­cia azu­la­da. Ten­ho di­ante de mim só matéria im­pon­deráv­el, cheia de fres­cu­ra e de vi­da, donde vai sair a no­va cri­ação. O mar não se vê ain­da, mas a voz vem das pro­fun­das ca­da vez mais al­ta, e adi­vin­ham-​se na es­pes­sura da nebli­na, en­tre ve­las de­spedaçadas que se de­batem nos ares, col­unas de fan­tas­mas que fo­gem na cer­ração dis­per­sa. Só um, maior, teima, quer fixar-​se, de­bate-​se com a luz e de­sa­parece en­fim en­tre clam­ores no hor­izonte ilim­ita­do. Uma par­agem su­fo­ca­da -luz a jor­ros -e o mar em on­du­lações verdes, ca­da vez mais trans­par­entes e com re­flex­os metáli­cos. 

  Ve­jo ago­ra o bar­co ador­na­do com o ven­to, a vela meti­da nos rizes e os home­ns es­ten­di­dos nos ban­cos. A água di­ante de mim on­du­la co­mo um véu diá­fano, só fres­cu­ra e transparên­cia, só poeira verde que des­ma­ia to­da ar­repi­ada... Fios del­ica­dos de al­gas bói­am ao sa­bor da on­da e ao meu la­do corre um veio mais es­curo e pro­fun­do, quase ne­gro, onde um ban­do de ton­in­has persegue, lo­go de man­hã, a man­ta da sardinha. Os grandes dor­sos azu­la­dos ir­rompem das águas, afun­dam-​se e tor­nam a apare­cer e a re­luzir ao longe, to­dos mol­ha­dos, num resto de névoa a dis­solver-​se... Não há cor co­mo este verde, que é hál­ito puro ao mes­mo tem­po; nem vi­da co­mo es­ta vi­da, que surge in­tac­ta di­ante dos meus ol­hos deslum­bra­dos. Re­luz a es­teira do sol e o primeiro voo das gaiv­otas cor­ta o céu.


  Um homem da com­pan­ha, de pé à proa, procu­ra a bóia das re­des com a mão so­bre os ol­hos. O so­ta, de­bruça­do na amu­ra­da, dei­ta a son­da.

  -Quarenta braças, é o mar do peixe. 

  -As bóias!... -ex­cla­ma out­ro.

  -Ar­reia! -é a voz do ar­rais.

  Sol­ta-​se a es­co­ta e a ver­ga cai so­bre os ban­cos. Os home­ns re­mam. Es­ta­mos à vista da caça, que no Verão se deixa ficar no mar de um dia para o out­ro. Prepara-​se a polé e um grupo à proa tira as bóias e de­pois os cadoiros. 

  -A ver a for­tu­na que Deus nos dá. 

  -Ala! ala! 

  As re­des alas­tram o fun­do e dois home­ns e o moço, de bate­dor em pun­ho, deitam a água fo­ra. -Ol­hem ess­es ca­bos! -Atirem para cá o bicheiro. -En­rodil­ham-​se no es­curo dos fios coisas vis­cosas, de­batem-​se as pescadas e os ruiv­os. A to­do o mo­men­to as at­itudes, os gestos e os gru­pos se mod­ifi­cam. Cresce o alar­ido: -Ago­ra! ago­ra! -Só o vel­ho de cachim­bo nos dentes golpeia, in­al­teráv­el, os peix­es. -Ala! ala! -Eh ra­pazes! oupa! -Pela bor­da fo­ra, de naval­ha em pun­ho, a com­pan­ha mar­ca os peix­es no cachaço e no lom­bo e ati­ra-​os ain­da vivos para a cav­er­na. Ca­da pescador tem a sua mar­ca: salé ao atrav­es­sar do rabo; salé e risco; pé de gal­in­ha; gal­ha, risco cor­ta­do na pa­to­la do rabo; duas gal­has, dois riscos no mes­mo sí­tio; um lom­bo, o mes­mo risco no rabo, da ban­da do lom­bo; dois lom­bos, dois riscos; do la­do, um risco e dois riscos; um cachaço, um risco no cachaço; dois cachaços, dois riscos; uma cruz no cachaço; um pa­po, um risco no pa­po; dois pa­pos, dois riscos; cruz ao pa­po e meio rabo. As cor­tiças das re­des têm tam­bém os seus sinais, para o dono as dis­tin­guir: sig­no sal­imã