o; grel­has; grel­has e cruz; grel­has e um risco; grel­has e dois riscos; lampião e out­ros. 

  Saltam no fun­do as pescadas de lom­bo pre­to, os boni­tos, as ra­ias, os ca­patões e uma ton­in­ha re­luzente, que os home­ns matam com os bicheiros. São ruiv­os de dor­so ver­mel­ho e doira­do e grande cabeçor­ra car­ti­lagi­nosa, um peixe-​rei e cações ac­inzen­ta­dos. E al­gas, al­gas emaran­hadas co­mo ca­be­los verdes, nos peix­es-​sapos, na tremel­ga cor de vin­ho e na es­pal­ma­da ra­ia, que abre a bo­ca su­fo­ca­da; nos peix­es-​lixas cheios de pique e nas cara­paças de carangue­jos de­sajeita­dos, que cor­rem com os fer­rões aber­tos no ar. E os home­ns, en­char­ca­dos e de per­na nua, con­tin­uam a me­ter as re­des a es­cor­rer para den­tro do bar­co. O fun­do da catra­ia es­cor­re­ga cheio de água e daque­la vi­da que se de­bate, mis­tu­ra­da e cal­ca­da, cheiran­do a fres­cum. É uma mescla de dor­sos, de es­ca­mas, de pe­les com re­flex­os mol­ha­dos, de tons es­cor­re­ga­dios e metáli­cos das savel­has, de ven­tres es­bran­quiça­dos dos lin­gua­dos que se voltam e mostram uma pele quase hu­mana, de vis­cosi­dades e de pra­ta movediça. E as re­des con­tin­uam a subir, e o peixe pre­so pelas guel­ras a de­bater-​se en­quan­to os home­ns de naval­ha em pun­ho o golpeiam. Al­guns, de braços ar­regaça­dos e mãos vis­cosas, lavam-​se no mar. Out­ros jun­tam-​se ao moço com bate­dores, dei­tan­do a água fo­ra, e à proa sep­aram os sol­hões, os rodoval­hos e o peixe cha­to do fun­do, que vem en­volvi­do em areia.

  -Es­tá a caça den­tro. 

  -Quan­to? 

  -Pra aí dois cen­tos. 

  É a pesca­da; o out­ro peixe não se con­ta. 

  Va­mos voltar à boli­na para aproveitar o ven­to. Out­ra vez a vela e o ruí­do do mar man­so que me em­bala. 

  Atrás de nós fi­ca uma larga estra­da de pra­ta. Na poal­ha de oiro que cai do céu de­scubro um risco in­de­ciso: é a ter­ra. Primeiro, nu­vem dis­tante. Um mo­men­to e acen­tu­am-​se os traços deslava­dos da areia. Mais cor ago­ra…É a ter­ra, a princí­pio desvaneci­da e roxa e de­pois verde nos eter­nos pin­heirais. Um are­al doira­do, um pon­to bran­co que es­tremece -o Sen­hor da Pe­dra. O ven­do enche a vela e, pouco a pouco, to­do o panora­ma trans­par­ente sai do mar a es­cor­rer tin­ta. No fun­do er­gue-​se a cos­ta com man­chas es­curas dos pin­heiros, que não se dis­tinguem ain­da. Faís­ca en­vol­ta em névoa a bran­cu­ra das casas e to­da a larga pais­agem re­nasce di­ante de mim com cores fra­cas de aguarela. A ter­ra volup­tu­osa -cabe­de­lo de oiro, montes páli­dos, que saem da água co­mo seios -en­treabre-​se para nos acol­her. Eis os gi­gan­tescos braços de Leixões, tão leves que a luz os tres­pas­sa, a pene­dia afi­ada -de Car­reiros, onde o mar es­ca­choa, e o pon­til­hão cober­to de es­puma. Ao sul Lavadores, o are­al de Es­pin­ho, bru­ma afas­ta­da e cor de cin­za. Cai a tarde, va­mos en­trar a bar­ra. Quase to­co de um la­do no vel­ho caste­lo roí­do de sal­itre e do out­ro no bi­co do cabe­de­lo, onde as gaiv­otas apan­ham o úl­ti­mo sol, com os pés meti­dos na água. Vem a va­ga e alas­tra-​se, vai a va­ga e a es­puma referve na areia mol­ha­da, de um oca mais es­curo.

  As mul­heres cor­rem pe­lo cais: 

  -Quan­tas dúzias? quan­tas dúzias? 

  Mas os home­ns não re­spon­dem. De pé, nos ban­cos, com os bar­retes na mão, en­toam o Ben­di­to. Es­curece. É o mo­men­to em que a luz des­ma­ia, em que a cor é tansparên­cia e a na­tureza se es­vai en­ton­te­ci­da. As tin­tas são pó de tin­ta, os montes são fan­tas­mas e o rio um grande la­go azul. Já sei: o mun­do é azul... Fios de oiro per­di­dos na Out­ra Ban­da es­treme­cem e vão de­sa­pare­cer. Nas lan­chas ar­rib­adas al