ar­idos de poveiros. O grande pano sem ven­to cai so­bre os ban­cos e o úl­ti­mo im­pul­so que nos traz, no jor­ro da enchente, que en­tra pela bar­ra cheio de es­pumas. O rio não tem con­sciên­cia -voltou-​se o céu e nós vog­amos nu­ma poeira roxa que a to­do o mo­men­to se trans­for­ma. Ago­ra é lilás o mun­do, é vi­ole­ta, é um son­ho que se some pouco e pouco e que a noite vai tra­gar. 

  O peixe é ati­ra­do aos mon­tões para as pe­dras, e as mul­heres da lingue­ta, os home­ns de den­tro do bar­co, ca­da um se­gu­ra pela pon­ta as suas re­des, la­van­do-​as no rio. 

  Ol­ho... A Out­ra Ban­da, vi­ole­ta, de­sa­pare­ceu na noite. O rio azul, de­pois diá­fano e cor de cin­za, des­fez-​se em vi­ole­ta, um resto de poal­ha vai sumir-​se na bru­ma, onde só a jóia do farolim cin­ti­la. Os tons vi­ole­tas afog­aram tu­do e a pais­agem des­falece. O mun­do não ex­iste -o mun­do é a luz. 

  PAL­HEIROS DE MI­RA

  A pesca 

  Jul­ho de 1922 

  Em to­do o vas­to are­al que se es­tende de Es­pin­ho ao cabo Mon­dego, a pesca é de ar­ras­to e a grande abundân­cia de sardinha, grande, mé­dia e pe­que­na ou, por out­ra, vareir­in­ha, co­mo lhe chamam no in­te­ri­or das ter­ras. O are­al e o mar en­si­nam e ex­igem a pesca colec­ti­va -um grande bar­co, uma grande rede e uma forte com­pan­ha. A saí­da é perigosa e, de um mo­men­to para o out­ro, a on­da cresce e o bar­co não pode abicar. Daí as enormes em­bar­cações, as re­des, as cor­das e os bois para as puxar. Para o sul, até Pe­dro­gos, em Lavos, em Buar­cos, a pesca é tam­bém costeira e de ar­ras­to. De­pois, o pescador mu­da de bar­co e de pro­ces­sos.

  Du­rante a safra, que du­ra oito meses, de Abril ao Na­tal, le­va-​se o peixe em car­gas pelas estradas da região, a dor­so de cav­al­gadu­ra -a sardinha que sabe a lom­bo de bur­ro dizem que é a mel­hor -ou em pe­quenos car­ros de bois que o car­reiro guia pela fala, sem se servir de aguil­ha­da: -Va­mos lá... En­tão... Eixe... E o boiz­in­ho pa­ciente lá re­toma o tril­ho a voz con­heci­da e ami­ga que o guia e en­cam­in­ha. Sai para a Bair­ra­da, para a Ana­dia, para os hotéis do Buça­co e para as ter­ras longín­quas. A to­do o mo­men­to se en­con­tra um ma­cho com dois ceirões em per­feito equi­líbrio e ao la­do o homem tis­na­do e seco, ou a mul­her de chapéu re­don­do e xaile, cor­ren­do pe­lo are­al e pela estra­da, com a sa­ia en­saca­da até ao joel­ho. 

  15 de Jul­ho 

  De Can­tan­hede a Mi­ra são qua­tro ho­ras de cam­in­ho. Pin­heiros, sem­pre pin­heiros, e um can­tar desa­bal­ado de cigar­ras co­mo nun­ca ou­vi na min­ha vi­da. De­pois, num car­ro de bois, a trav­es­sia do are­al, sob a re­ver­ber­ação do sol, e por fim Mi­ra, ter­ra de pescadores, pal­heiros de madeira es­ta­ca­dos na on­du­lação da duna, que sobe co­mo uma va­ga até ao al­to. De um la­do uma poça, do out­ro, lá no fun­do, o mar lev­an­tan­do a areia com o bater com­pas­sa­do e eter­no. Atrav­es­so o char­co por um pon­til­hão. Subo uma rua. Es­curece. Pal­heiros, tábuas po­dres, es­tábu­los de cav­al­gaduras e ar­mazéns de sal­ga. Mul­heres, cri­anças, por­cos. Subo sem­pre en­tre bar­ra­cas vel­has, al­gu­mas com os pés meti­dos na água; out­ras, lá em cima, der­readas e cam­badas, de­fend­en­do-​se da areia que as sub­verte com pal­içadas de pin­heiro. Som­bras, con­fusão de ru­elas fe­dorentas e es­curas, falatório nas taber­nas. Restos de peixe por to­da a parte e de ceirões vel­hos que apo­drecem, en­tre a vi­da que pu­lu­la e ao ar do mar que vem do largo e tu­do varre e pu­rifi­ca. Com a noite a con­fusão re­do­bra: a ter­ra parece maior e mais es­cu­ra. Con­tin­uo a subir e lá no al­to de­scubro en­fim o mar, mais pal­heiros es­par­sos no es­plên­d