i­do are­al e al­guns bar­cos es­tran­hos e ar­caicos, que er­guem até ao céu as proas e as popas desme­di­das.

  Tu­do is­to foi um are­al e um char­co. O char­co sec­ou, re­duzi­do à Bar­rin­ha; o are­al, que vem do norte até onde a vista al­cança, es­ta­ca no traço lilás do cabo Mon­dego. Só três cores dom­inam na am­plidão do mar e na ex­ten­são da areia -o azul, o verde e o oca. É muito grande e muito sim­ples.

  Man­hã. Primeira ida ao mar das qua­tro e quarenta e cin­co min­utos. Um serouqueiro do sul que en­volveu de bru­ma a noite aca­ba de de­sa­pare­cer. Mas da névoa fi­cou névoa mis­tu­ran­do-​se ao azul e à fres­cu­ra que di­la­ta os pul­mões e ine­bria. Um ra­paz, no al­to da duna, so­pra o búzio com as bochechas cheias, chaman­do a com­pan­ha para a pesca. O bar­co es­tá pron­to. Uma es­teira de varas, duas jun­tas de bois para o puxar, home­ns nus meti­dos na água e agar­ra­dos às cor­das, e a on­da que os salpi­ca e os ala­ga. En­tra para den­tro a com­pan­ha. Refer­vem as on­das que o saco­dem lá no al­to... Os fortes ra­pagões agar­ram-​se aos qua­tro re­mos, a proa alvo­ra... É este o mo­men­to an­gus­tioso, en­quan­to se não safam da co­va do mar.

  Eh, ar­rais, cara­go, a maré é ago­ra! -diz o João Custó­dio, revezeiro. 

  O ar­rais se­gu­ra a cor­da, que é o úni­co leme deste bar­co. Tu­do con­siste em saber «fer­rar a vol­ta na ré»  para o livrar do va­gal­hão -tu­do con­siste em de­streza e pul­so, senão o bar­co sacu­di­do enche-​se de água e vi­ra. Dois home­ns, os cal­adores, aju­dam-​no a soltar o ex­ten­so cabo en­ro­la­do à popa, que nun­ca mais larga da mão. Num in­stante se livra da on­da que que­bra, mas a manobra é com­pli­ca­da. O bar­co tem qua­tro re­mos nos qua­tro ban­cos: o do caste­lo da proa, o do re­mo da proa, o do re­mo da ré e o do caste­lo da ré. A ca­da um destes pe­sadís­si­mos re­mos se agar­ram qua­tro home­ns de pé nas es­torveitas, que fi­cam nos in­ter­va­los dos ban­cos, seis sen­ta­dos e ain­da out­ros, os cam­boeiros, puxan­do os cam­bões -to­dos ao mes­mo tem­po, to­dos com o mes­mo rit­mo. O reveze iro, que or­de­na a saí­da para o mar, man­da tam­bém em ca­da re­mo. Na parte mais del­ga­da re­mam os caneiros, que tril­ham o re­mo e fazem a vo­ga, aju­da­dos pe­los se­gun­dos.

  O bar­co vai largan­do o grosso cabo com nós, que se chamam bal­izas, até ao mo­men­to em que o ar­rais sente o peixe mais à ter­ra, a aguagem, pela mu­dança da cor, ou dis­tingue o al­ca­traz que nas águas lúzias cai a pique so­bre a man­ta da sardinha. Out­ras vezes é a fer­vença ou gor­gol­hi­do que lhe in­di­ca onde es­tá o peixe -pe­que­nas bol­has de ar que as­cen­dem à su­per­fí­cie –, ou mes­mo a ar­den­tia com que os grandes ban­cos de sardinha ilu­mi­nam o mar. En­tão o ar­rais, de pé, dá o sinal dizen­do: -Em nome do San­tís­si­mo Sacra­men­to, saco ao mar! -To­da a com­pan­ha se de­sco­bre. Larga-​se a cua­da de mal­ha mais miú­da, a man­ga, peça mais grossa, e por fim o cabo, que se de­sen­ro­la até à ter­ra.

  Voltam e o mo­men­to dramáti­co repete-​se. O bar­co vem no al­to da ressaca. -Larga! larga! -Os home­ns re­mam can­tan­do. In­un­da-​os um jor­ro mais im­petu­oso. Ago­ra é o ar­rais que na pan­ca­da do mar traz a cor­da na mão guian­do o bar­co. Um va­gal­hão de es­puma vai de­spedaçá-​lo e ar­ras­ta-​o num úl­ti­mo im­pul­so pe­lo are­al aci­ma. Dois ra­pazes, meti­dos na água, en­fi­am lo­go nas ar­go­las do costa­do duas gan­chor­ras de fer­ro. Salpi­cos. Alar­ido. A com­pan­ha salta em ter­ra, jungem-​se os bois às cor­das, lança-​se o estra­do de varais pela areia; so­bre os varais, ro­letes; e, pux­ado pe­los bois e pe­los home­ns, o bar­co enorme sobe,