 de proa volta­da para o mar e pron­to para no­va ar­remeti­da.

  O es­pra­ia­do imen­so... A areia de oiro sem fim, des­ma­ia­da pouco e pouco e en­vol­ta no fun­do em pó das on­das -o mar in­fini­to, verde-​es­curo, verde-​claro, ro­los so­bre ro­los, e por fim, num côn­ca­vo jun­to ao cabo, des­fazen­do-​se em es­puma e bran­cu­ra. Ao norte, névoa leitosa e vi­va, que sobe ao ar co­mo um grande clarão bran­co. Água sem lim­ites -céu sem lim­ites -areia sem lim­ites e a voz imen­sa, o lamen­to eter­no, dia e noite, mais baixo, mais al­to, mas que nun­ca ces­sa de pre­gar...

  Ten­ho di­ante de mim o ful­vo are­al, a ag­itação do mar até onde a vista al­cança e a ag­itação hu­mana num quadro mais re­stri­to. São qua­tro com­pan­has e ca­da com­pan­ha tem noven­ta e seis partes, en­tre home­ns que vão ao mar, home­ns da ter­ra e mul­he­rio para os ces­tos. Jun­ta-​se mais gente que acode à ven­da, re­gatões e almocreves, mul­heres de sa­ia ar­regaça­da, chapéu e xaile, com as xalavaras e os baldes à cabeça. E este movi­men­to repete-​se e re­do­bra, à me­di­da que os bar­cos en­tram e saem, porque fazem três e qua­tro lanços ca­da dia. Au­men­ta a labu­ta com o lavar das re­des no mar, com a sua con­dução pe­lo are­al, sus­pen­sas em bam­binelas, às costas de cin­quen­ta ra­pari­gas, em cordão e aos pares, com um car­ro de bois à frente que traz o saco en­char­ca­do. E sem­pre, num vaivém, sobem e de­scem a ram­pa de areia as jun­tas de bois, seis por cor­da, que vão puxan­do os in­ter­mináveis ca­bos du­rante qua­tro lon­gas ho­ras, até o saco chegar a ter­ra. Gri­tos. Home­ns pas­sam a cor­rer, con­duzin­do cor­das atrav­es­sadas num es­peque.

  São três ho­ras da tarde. No mar, grandes cha­padas de pra­ta na es­teira do sol, que no are­al re­ver­bera e ofus­ca. Jul­ho. Nor­ta­da ri­ja enchen­do a bo­ca de areia e de salpi­cos de es­puma amar­ga. Doira­do e verde. O quadro é tão largo que se per­dem as minú­cias: con­cen­tro-​me neste pedaço de areia de uns poucos de quilómet­ros afo­ga­do em luz e ag­ita­do de vi­da, no azul do céu e na on­da que en­con­cha e es­toira, reper­cutin­do-​se em som e es­pal­han­do-​se em pó es­verdea­do. Re­ver­ber­ação de sol, poeira de água lu­mi­nosa que vi­bra e es­tremece. Alar­ido de mul­heres que saem aos car­dumes dos pal­heiros. Içam-​se os pendões, chaman­do mais gente para o peixe. Gru­pos, cordões hu­manos, gente das aldeias que acode à catra­ia. Um bar­co sai no al­to da on­da, out­ro re­gres­sa. É ago­ra! é ago­ra! E os bois ajoel­ham sob o pe­so. Out­ros, mais longe, va­garosa­mente vão puxan­do sem­pre a grande rede para a ter­ra, agar­ra­dos às bal­izas pelas cor­das. Sobem ao al­to do are­al, tor­nam ao fun­do, de­scem ao mar, en­tram no mar... Um ra­paz agi­ta o bar­rete, e out­ro, ao longe, re­sponde ao sinal reg­ulan­do o an­da­men­to dos bois: -Ar­ri­ba! Ar­ri­ba! No al­to, o azul. no fun­do, o mar que des­ma­ia e se dis­solve em oiro no hor­izonte. A brasa do sol ao mer­gul­har vai faz­er ex­plosão. Não há uma nu­vem no céu; temos ho­je o raio verde com certeza. No are­al, os eter­nos ro­los bran­cos es­pra­iam-​se e suce­dem-​se da Cos­ta No­va ao cabo Mon­dego. Já se vêem ao lume de água as primeiras bóias da rede, os ar­in­ques, e a faina não ces­sa pela areia fo­ra. Gru­pos en­ov­el­am-​se. Muito longe, os bois pux­am out­ras re­des. Uma jun­ta foge e au­men­ta a con­fusão. Lá em cima, no dor­so do monte doira­do, os carpin­teiros de macha­do re­men­dam dois es­quele­tos de bar­caças... Vêem-​se ago­ra as pan­das: jun­tam-​se os ca­bos e a bo­ca da rede ca­da vez se aper­ta mais. A vi­da atinge o auge. -Ar­ri­ba! Ar­ri­ba! -To­dos deitam as mãos às cor­das. Corre o mul­he­rio. Ra­pa