s que con­heci­am os peri­gos destas costas, começaram a as­sus­tar-​se, pen­san­do que a der­ro­ta segui­da aprox­ima­va muito a fra­ga­ta do ban­co de Ar­guim, mas os seus con­sel­hos foram de­spreza­dos. Son­da­va-​se de duas em duas ho­ras cam­in­han­do a to­do o pano, e co­mo se jul­gavam, na man­hã de 2 de Jul­ho, por mais de cem braças de água, pôs-​se a proa a su-​sud­este, o que lev­ava o navio mais di­rec­ta­mente para a ter­ra.

  Ao meio-​dia, um guar­da-​mar­in­ha, de­pois de ter mar­ca­do a der­ro­ta, as­se­gu­ra­va acharem-​se na pon­ta do ban­co, e deu parte da sua ob­ser­vação ao ofi­cial que de há muitos dias da­va con­sel­hos ao co­man­dante so­bre o cam­in­ho a seguir. «Não se im­porte, re­spon­deu este, temos oiten­ta braças.» «A cor da água tin­ha mu­da­do com­ple­ta­mente, diz Cor­reard; nu­merosas er­vas apare­ci­am ao lon­go do bor­do e agar­ra­va-​se muito peixe. To­dos estes fac­tos provavam, de mo­do a não deixar dúvi­da, que es­tá­va­mos num baixio; a son­da anun­ciou efec­ti­va­mente ape­nas de­zoito braças. O ofi­cial de quar­to man­dou ime­di­ata­mente pre­venir o co­man­dante que deu or­dem de me­ter um pouco mais a barlaven­to. Íamos à larga, com os pa­pa-​fi­gos a bom­bor­do. Amainaram-​se lo­go es­tas ve­las; a son­da foi lança­da de no­vo e deu seis braças. O capitão foi pre­venido dis­to, e a to­da a pres­sa man­dou col­her to­do o ven­to, mas in­fe­liz­mente já não era tem­po. A fra­ga­ta, vin­do ao ven­to, deu quase lo­go uma pan­ca­da, cor­reu ain­da um pouco e deu se­gun­da, e en­fim uma ter­ceira. Parou num sí­tio em que a son­da só deu cin­co met­ros e sessen­ta cen­tímet­ros de água e era o in­stante da maré-​cheia. Achá­mo-​nos nes­ta posição fa­tal pre­cisa­mente na época das marés vi­vas, tem­po que nos era o mais des­fa­voráv­el pos­sív­el, porque elas iam de­sa­pare­cer e nós en­cal­há­mos en­quan­to a água es­ta­va mais el­eva­da.» 

  O naufrá­gio teve lu­gar no dia 4 às três ho­ras e um quar­to da tarde. Este acon­tec­imen­to es­pal­hou na fra­ga­ta a mais som­bria con­ster­nação. Quis­er­am-​se tomar as dis­posições or­dinárias para sa­far o navio; de­pois de o terem alivi­ado, fun­dear­am-​se su­ces­si­va­mente as ân­co­ras em di­ver­sas di­recções e vi­raram so­bre os cal­abrotes, mas es­tas manobras, pro­lon­gadas du­rante dois dias in­teiros, foram in­fru­tu­osas.

  Na pre­visão da per­da do navio, re­uniu-​se o con­sel­ho para re­solver so­bre a maneira de as­se­gu­rar um re­fú­gio à trip­ulação. O gov­er­nador do Sene­gal deu o plano de uma jan­ga­da que jul­gou sus­cep­tív­el de levar duzen­tos home­ns com pro­visões. Foi-​se obri­ga­do a recor­rer a um meio des­ta na­tureza, porque as seis em­bar­cações de bor­do foram jul­gadas in­ca­pazes de se car­regarem com os qua­tro­cen­tos home­ns pre­sentes. As pro­visões de bo­ca de­vi­am ser colo­cadas na jan­ga­da, e às ho­ras da co­mi­da os trip­ulantes das canoas viri­am bus­car as suas rações. De­sem­bar­can­do nas costas arenosas do de­ser­to, di­ri­gir-​se-​iam em car­avana para São Luís. Os acon­tec­imen­tos que tiver­am lu­gar de­pois provaram que este plano era per­feita­mente con­ce­bido, e que teria si­do coroa­do de bom re­sul­ta­do, se, in­fe­liz­mente, a ex­ecução destas de­cisões não fos­se prej­udi­ca­da pelas lamen­táveis sug­estões do egoís­mo. 

  Num mo­men­to, a Medusa começou a mover-​se de uma maneira sen­sív­el; es­ta­va quase a na­do e na maré al­ta ape­nas a popa ba­tia em ter­ra; mas na noite de 4 para 5 o céu es­cure­ceu, levan­tou-​se o ven­to, o mar en­grossou, e a fra­ga­ta foi ca­da vez mais ag­ita­da. «Começou, diz o Sr. Cor­reard, a