 dar fre­quentes cu­la­padas que se mul­ti­pli­cavam, au­men­tan­do de vi­olên­cia. A ca­da in­stante, es­perá­va­mos vê-​la de­spedaçar-​se; a con­ster­nação tornou-​se de no­vo ger­al, e adqui­ri­mos em breve a certeza cru­el de que a em­bar­cação es­ta­va ir­re­me­di­avel­mente per­di­da. Reben­tou pe­lo meio da noite; a quil­ha par­tiu-​se em duas partes, o leme desmon­tou-​se e ape­nas fi­cou pre­so à popa pelas cadeias, o que fez causar um mal es­pan­toso. Pro­duz­iu o efeito de um aríete hor­izon­tal que, im­peli­do com vi­olên­cia pelas va­gas, fe­ria a golpes repeti­dos a popa do navio. As­sim, uma parte do soal­ho da câ­mara do co­man­dante es­ta­va lev­an­ta­da; a água en­tra­va de uma maneira es­pan­tosa. Den­tro em pouco, aos peri­gos do mar vier­am jun­tar-​se as primeiras ameaças do peri­go das paixões des­per­tadas pe­lo de­ses­pero e livres de to­do o freio pe­lo sen­ti­men­to im­pe­rioso da con­ser­vação pes­soal. Pelas onze ho­ras, reben­tou uma es­pé­cie de re­vol­ta, sus­ci­ta­da por al­guns mil­itares, que per­suadi­ram os seus ca­ma­radas de que os que­ri­am aban­donar. Muitos sol­da­dos tin­ham toma­do ar­mas e tin­ham-​se colo­ca­do na cober­ta de que ocu­param to­das as pas­sagens; mas a pre­sença do gov­er­nador e dos ofi­ci­ais bas­tou para acal­mar os es­píri­tos e resta­bele­cer a or­dem. 

  «Lo­go de­pois, a jan­ga­da, ar­ras­ta­da pela força da cor­rente e do mar, par­tiu as amar­ras que a pren­di­am à fra­ga­ta, e foi-​se des­vian­do dela. Foi is­to anun­ci­ado por gri­tos, e man­dou-​se ime­di­ata­mente uma chalu­pa que a con­duz­iu a bor­do. Es­ta noite foi ex­trema­mente penosa. Ator­men­ta­dos pela ideia de que o nos­so navio es­ta­va ime­di­ata­mente per­di­do, sacu­di­dos pe­los fortes movi­men­tos que lhe im­prim­iam as va­gas, não pude­mos ter um úni­co mo­men­to de des­can­so. No dia seguinte, 5, ao romper da man­hã, havia per­to de três met­ros de água no porão e as bom­bas não po­di­am dar-​lhe saí­da; de­cid­iu-​se que era pre­ciso evac­uar o navio, o mais de­pres­sa pos­sív­el.» 

  A jan­ga­da tin­ha vinte met­ros de com­pri­do e sete de largu­ra. Era com­pos­ta dos mas­tros de gávea da fra­ga­ta, das an­te­nas, e suas cober­turas, vi­gas, etc. Es­tas difer­entes peças es­tavam jun­tas umas às out­ras por amar­ras. Dois mas­tros de gávea for­mavam as peças prin­ci­pais e es­tavam colo­ca­dos dos la­dos; out­ros qua­tro mas­tros es­tavam re­unidos dois a dois no cen­tro do apar­el­ho. Tábuas pre­gadas por cima deste primeiro plano for­mavam uma es­pé­cie de soal­ho. To­davia, es­ta con­strução muito im­per­fei­ta não es­ta­va ain­da acaba­da. Man­daram-​se de­scer cen­to e vinte e dois mil­itares, vinte e três mar­in­heiros e pas­sageiros. A canoa grande re­ce­beu trin­ta e cin­co pes­soas, a lan­cha maior quarenta e duas, a canoa do co­man­dante vinte e oito, a chalu­pa oiten­ta e oito; um es­caler de oito re­mos vinte e cin­co e a em­bar­cação mais pe­que­na quinze. De­vi­am em­bar­car-​se, na jan­ga­da e nos bar­cos, pro­visões, vin­ho e pi­pas de água, mas fez-​se tu­do com tal con­fusão que estes ob­jec­tos, essen­ci­ais, foram mal repar­tidos e uma grande quan­ti­dade de­les foi deix­ada no con­vés do navio ou lança­da ao mar du­rante o tu­mul­to da evac­uação.

  A lei da hon­ra pre­screve ao co­man­dante, de um navio naufra­ga­do, ser ele o úl­ti­mo a deixá-​lo; o Sr. De Chau­mareys fal­tou a es­ta obri­gação, em­bar­can­do-​se na sua canoa quan­do havia ain­da uns sessen­ta home­ns na fra­ga­ta. Deixaram-​se defini­ti­va­mente dezas­sete que não pud­er­am em­bar­car na chalu­pa muito car­rega­da e em mau es­ta­do para re­si­stir ao m